Marco Celso Huffell Viola


Tambor da selva, livro como sabonete, literatura hambúrguer

 



Em seu último post no Nova Klaxon, o Emanuel, tocou num ponto importante da nossa cultura de consumo, a publicidade. Como já fui redator de agência e trabalhei com toda a área da mídia, rádio, televisão, jornal, posso acrescentar um pouco mais de lenha nessa conversa.Dizem que a prostituição é uma das mais antigas profissões do mundo, mas pra mim a publicidade rivaliza com ela em antiguidade e algumas vezes as duas se misturam.Quem já participou de uma reunião com um cliente insuportável, sabe bem o que falo ou quem já teve que escrever um anúncio para um produto que só existe porque a publicidade garante que ele existe e, são muitos, sabe também do que falo.A publicidade movimentou no primeiro trimestre de 2005 no Brasil segundo dados do Ibope Monitor 27,9 bilhões de reais. No mês de setembro com publicidade on line, nos Estados Unidos,foram gastos 3,6 bilhões de dólares. Lá, tanto quanto aqui, os 30 maiores anunciantes são de produtos completamente dispensáveis para a vida de qualquer ser humano normal e até por isso anunciam pesado, todo mundo pode viver sem uma tv de plasma ou mesmo um iogurtinho ou uma sandalhinha que traz um microfone acoplado.Já andaram falando também, por aqui, em proibir a participação de crianças em comerciais, mas ninguém se mexeu. Em alguns países na Europa é proibido.E o Estatuto da Criança e do Adolescente? Natimorto.
A publicidade é uma atividade sancionada pela neurose obsessiva(repetitiva) de uma civilização que perdeu a noção do que é importante e necessário para viver. Está em crise nos Estados Unidos, sabem porquê? Os avanços tecnológicos, as mídias interativas, a tv paga,o controle remoto vem roubando espaço da publicidade convencional.Como saída eles estão entrando no cinema e nos seriados da tv.
A publicidade brasileira, de uma maneira geral, mantém os preconceitos em dia e em pé.Alguém já viu uma máquina de lavar anunciada para um homem? Não! O anúncio é sempre dirigido à mulher, alguém já viu um anúncio de sabão em pó dirigido para homem?Não!Um fogão sendo vendido para um homem? Não!Uma geladeira?Não! Mulheres e crianças, primeiro, aliás, ao contrário, crianças e mulheres.Digo crianças primeiro, também, porque a maior parte dos anúncios é de uma obviedade tão grande que até uma ameba com meio neurônio ativo compreenderia. Com relação às mulheres os publicitários brasileiros pensam que mulher é ótima para pilotar um fogão ou ralar a barriga no tanque. Há um anúncio onde um cantor, um chorão muito mala, aparece cantando para uma dona de casa no tanque e entrega a ela um lindo pacote de sabão em pó. Mais ridículo e idiota o anúncio não pode ser.A publicidade brasileira imbeciliza.Mas, talvez eu esteja generalizado e desprezando tão importante setor da economia e desfazendo dos talentos de nossos publicitários, alguns até com prêmios internacionais,mas se até os chipanzés se auto-protegem, porque não os publicitários?Prêmio para mim não é sinônimo de qualidade,muito menos de responsabilidade, ética ou importância.A desaparecimento dos anúncios de cigarros só ocorreu em função da proibição legal, não o contrário.
Agora, a questão do uso das verbas públicas para publicidade na corrupção. Não entendo porque tanto barulho em torno disso, ora, as verbas não são públicas? São públicas?Portanto, pertencem a todos e a ninguém e, se pertencem a todos e a ninguém, nada mais natural que aqueles que estão próximos a elas, pegarem para si. É preciso terminar com a expressão mentirosa dinheiro público, ou como os americanos gostam de dizer: dinheiro dos contribuintes.Quando o dinheiro vai parar nos cofres do governo, ele já trocou de mãos, deixou de ser público, ou o governo não tem a caução pra fazer com ele o que quiser?Não é mais dinheiro público.É dinheiro sem identidade.Não está impresso nele que uma ínfima parte pertenceu, um dia, ao seu Zé que entregou aos cofres que, não são públicos, através do imposto embutido em um quilo de feijão comprado na mercearia próxima à sua casa. Deixou de ser público e, é de quem tem a chave do cofre.É preciso responsabilizar aqueles que são responsáveis pela fiscalização da aplicação desses recursos, ou a Justiça Federal, o outro poder, não existe para isso? Não ganham bem para isso?O resto é retórica eletiva.Não sou tão otimista a ponto de acreditar que a corrupção algum dia vá acabar, ela está presente em todos os cantos do globo, quanto mais pobre, mais miserável o país, fisicamente e mentalmente, mais ela frutifica.A exceção, é lógico, da Suíça, mas lá parece que todos estão mortos, agora, num certo país de gente muito viva e cheio de cobras criadas...Como também não acredito como Emanuel que desmistificando a publicidade vá melhorar a literatura.Para vender, a publicidade pode ser autofágica e se necessário, ela mesmo se desmistifica.É mais ou menos aquilo como o jornalista da década de 30, H. L. Mencken* dizia de Roosevelt: “Se Roosevelt achar que se converter ao canibalismo pode lhe render votos, mandará engordar um missionário no quintal da Casa Branca”.É o mesmo com a publicidade, vale tudo para vender e só vale se vender, ou a conta, o cliente, o dinheiro, migra rapidamente para outra agência.É o poder do capitalismo exacerbado até o limite do desespero.A força da publicidade não advém dela própria, mas do dinheiro que a mantém, do dono da fábrica de panelas, dos provocadores de arroto internacionais,dos donos da fábrica de dentifrício.Já a literatura como substância, ente de criação, tem um abismo que separa da publicidade, intransponível.São duas coisas completamente distintas.Certa vez entrevistei Alfredo Machado(faleceu em 1991), criador da Editora Record, ele me disse em alto em bom som que o livro para ele era um produto como sabonete. Deveria ser vendido como se vende sabonete.Aparentemente deu certo a estratégia, a Record é dona hoje de duas das ex-maiores importantes editoras do país, Civilização Brasileira e José Olympio.E anuncia, os idiotas dos romances da Equipe denominada Norma Roberts editada pela Bertrand Brasil, outra sucursal da Record, estão presentes nos luminosos das grandes redes de livrarias do país. Mas o que Alfredo Machado não me disse é, que ele tinha em sua editora, bem menor, na época, que agora, (na ocasião a sua esposa reclamava que ele levava muito livro para o apartamento e ela temia que aquilo desabasse no apartamento do vizinho), um ótimo catálogo, misturado com muita bobagem vendável.
A comprovação que a publicidade não faz a mínima diferença para arte é o teatro.O teatro raramente anuncia e, no entanto, consegue sobreviver.
Aprendi com atores e produtores de teatro, em São Paulo, uma expressão chamada tambor da selva, que funciona assim: se uma peça de teatro é boa, o tambor da selva funciona, uma pessoa passa a outra e assim, por diante, e a peça termina virando sucesso.O contrário também é verdadeiro.Em cultura, a publicidade tem pouca importância.Os livros de Nora Roberts podem ter aut-doors espalhados pelo mundo todo, vai vender? Vai!Os compradores daquela coisa é gente que compra livro como compra sabonete, livros digestivos, ou de entretenimento, como me disse recentemente um autor colonizado, abduzido e que teve o seu cérebro comido por uma cultura alienígena “literatura é entretenimento”de auto-ajuda,dos Paulo Coelhos, das historinhas horrorosas, nojentas e pegajosas de Stephen King.É uma literatura feita como hambúrguer, rápida e rasteira, que você mal terminou de engolir e já esqueceu o sabor. Os compradores disso é um público descerebrado,que sempre existiu e vai continuar existindo, se não nasceu imbecilizado, tornou-se.
Com arte sou muito mais o tambor da selva, já o vi em ação.
*Henry Louis Mencken- Livro dos Insultos- seleção, tradução Ruy Castro- Ed Companhia das Letras


Escrito por Marco Celso Huffell Viola às 09h35
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A nova literatura e a nova poesia ainda não nasceram e nem vão nascer

 Marco Celso Huffell Viola

Li em algum lugar, recentemente, que a poesia de Reiner Maria Rilke envelheceu.
Não acreditei no que estava lendo e como Cartas a Um Jovem Poeta foi para mim um dos livros mais marcantes da minha formação voltei a reler o poeta que nasceu em Praga e se converteu num dos mais importantes poetas alemães do século XX e, morreu, segundo dizem, devido ao ferimento causado por um espinho de rosa.
Logo as rosas que ele tanto amou ou até por isso mesmo.
Você não lê um grande poeta como se fosse um poeta modernista ou da geração 45 ou da geração isso ou aquilo.
Lê o poeta por sua poesia.. Quais as influências que determinado autor sofreu, quais os movimentos literários que ele esteve inserido são assuntos técnicos que nada acrescentam a poesia em si. Isso interessa apenas a aqueles que trabalham com a língua e a literatura.Escritores, professores.
Isso também faz parte do sistema de classificação artística tão a gosto dos críticos cuja existência se justifica apenas em função dessas definições.
Quando alguém lê poesia e busca nela as referências sobre o autor, ou mesmo só que está escrito sem buscar a essência do que está dito, faz uma leitura técnica.
A poesia quando é verdadeira busca a transcendência na palavra escrita e apenas para esse fim ela existe.
Associam, por exemplo, a obra de Rilke a externalidades como aos castelos, aos anjos e as obras em pedra, como seu célebre Torso Arcaico de Apolo, onde para mim, apenas uma frase justifica o poema inteiro: “Força é mudares de vida” (1).O poema todo conduz a essa frase.O resto do tema é quase um pretexto para chegar a frase.Como são os anjos, os castelos...pretextos para construir uma grande poesia.
Também, recentemente, fui instado a responder o que eu achava da nova poesia.
Respondi o que disse a acima: Que a poesia não se define por nova ou velha, mas por poesia.Se você analisar a poesia sob o ponto de vista lingüístico, o que muda é a língua, a linguagem no sentido histórico.A lingüística é uma ciência interdisciplinar que realiza o estudo da língua e suas alterações diacrônicas.Essa ciência não faz nenhuma distinção sobre o conteúdo, o sentido último do texto, o que diz o autor, e quando faz acaba por confundir tudo, numa generalização imprecisa.(2) E o que importa realmente é o que diz o autor, não sua vida, seu momento histórico, suas amantes ou o nome de seu cachorro.
Esses professores ligados à análise literária, também sempre tentam enfiar determinado autor em um movimento. Porque é mais fácil para eles tentarem compreender o que quase sempre não conseguem entender.
E quando alguns autores criam movimentos que antes deles não existiam, e as influências sobre o artista são aquelas que pairam sobre sua angústia de viver e nada mais.Como é que fica?
O artista é autocrata em sua obra, se não for, é como era definida a poesia por Aristóteles, (incluindo aqui a dança o teatro) mimesis ou imitação e neste caso o artista imita as sombras da caverna, no exemplo de Platão.
E quando o autor é suficiente criador e inicia um movimento literário? Ah, bom, a fórmula seguinte desses classificadores é tentar casar o surgimento do movimento como necessidade de classe. O romantismo, segundo esses autores surgiu como necessidade da burguesia. E não da criação de Vitor Hugo.
Antes de Hugo o romantismo não existia. Ou a literatura policial que começou com o atormentado poeta Edgar Allan Poe, o primeiro autor a ter a coragem de ver o lado escuro da alma humana.Essa ficou sem explicação.Porque o movimento equivalente que existia na Europa, no momento, não se adequava a Poe e não havia nada equivalente nos Estados Unidos.
Essa tentativa de estabelecer a que movimento pertence o autor, o que é novo, o que é velho em arte, o que é revolucionário o que é vanguarda, não acontece apenas com a literatura.
Na pintura também, há o caso bem documentado do impressionismo cuja denominação foi dada a partir de uma declaração pejorativa de um crítico de arte francês ao ver a tela de Monet Impression du Soleil Levant numa exposição em 1874.Ou seja, uma declaração ofensiva acaba se tornado um designativo de um processo artístico. O problema dessas designações é que elas quase sempre se auto-esgotam e os classificadores (muitas vezes, comerciantes de arte, também) se esforçam em achar fases subseqüentes que geralmente são designações arbitrárias.
O que o artista tem com isso? Nada. Apelidar, ofender, dar o nome a um tipo de arte, estabelecer se é nova ou velha é atribuição, principalmente da critica e daqueles que trabalham sobre a arte não com arte.
A função do artista e criar, ser antena. Salvador Dali dizia que seus bigodes eram suas antenas.
E quando não existe um formulário literário (expressão cunhada por Octavio Paz)ocidental como na literatura árabe ou japonesa ou chinesa?
Já vi classificaram a poesia de Basho como naturalista, porque ele usa elementos da natureza em seus poemas. Não é uma classificação de uma simplicidade alarmante?
O naturalismo como movimento literário do século XIX está par e passo como o realismo criado por Emilio Zola. Agora, como um poeta como Basho que viveu no século XVI pode ser naturalista?Ele usa a natureza como elemento de ligação estética budista e criou seus poemas com uma função completamente distinta da poesia ocidental.
Impossível ligar essas pontas soltas.
É possível pensar nos poemas seguintes como “novos” ou “velhos”?

A cigarra...ouvi
Nada revela em seu canto
Que ela vai morrer


Quatro horas soarem
Levantei-me nove vezes
Para ver a lua.

Só existe uma maneira de compreender e medir essa poesia e, é com um instrumento que não estamos acostumados a usar para muitas coisas: o coração.
De outra maneira vamos buscar sempre no racionalismo besta explicações para o que não tem e nem precisa explicação.De onde concluo que não existe a poesia nova ou velha,a poesia pode ter sido criada ontem ou no século XVI, existe a poesia como um formulário (esse sim) de percepção da vida e do universo, sem idade e cada vez que ela for datada, perde a sua razão de ser.

1)Tradução dos poemas de Rilke e Basho de Manuel Bandeira- Estrela da Vida Inteira Ed.Record Altaya
2) De Poesia Política do autor.



Escrito por Marco Celso Huffell Viola às 09h22
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