Marco Celso Huffell Viola


Tu vais? E você, vai? E a grande dama

Ednei Silvestre fez uma matéria para o Bom Dia Brasil (28-12-2006) sobre Bárbara Heliodora www.barbaraheliodora.com estar traduzindo toda a obra de Shakespeare para o português.Não vi ainda uma reportagem importante sobre essa grande dama do teatro brasileiro, também não foi dessa vez.Com experiência de quem já interpretou, dirigiu, lecionou e escreve sobre teatro, ela distingue-se como uma verdadeira dama do teatro brasileiro, não imposta pela mídia que de acordo com suas conveniências determina quem é quem, baseada em critérios momentâneos. E agora ela traduz para o Brasil, Shakespeare.
Na minha opinião, no século XX surgiram e alteraram o visão do teatro três grandes teóricos sobre o assunto, o russo Constantin Stanislavski (1863-1938), o polonês Jerezy Grotoviski e Bertolt Brecht. Dos três, a mais larga, profunda e duradoura influência com certeza é de Stanislaviski, seu Preparação do Ator (ed. Civilização Brasileira), transformou a atuação dos atores, não apenas na Rússia, sua influência se espalhou na forma de interpretação a todos os grandes atores, inclusive os que atuam no cinema norte- americano. Ele trouxe a realidade para o teatro, o ator vive o personagem, veste o personagem, ao interpretá-lo, com os gestos e atitudes da vida real, sem artificialismos.O padrão antes de Stanislaviski, era o ator artificial, empolado, com raras figuras que atuavam de forma intuitiva. Jerzy Grotowsy introduziu pouca alteração nesse pensamento sobre a interpretação, internalizando mais os gestos, buscando até mais os aspectos psicológicos da interpretação, para ele o gesto nasce antes das palavras.Quem trouxe uma visão diferente nesse contexto foi Brechet, ele criou o distanciamento, a consciência critica do ator sobre o personagem que interpreta (existe uma palavra em alemão para esse conceito que ocupa quase uma página), esse atitude do ator,segundo Brechet também provocaria no público uma consciência critica do que via no palco.Com essa consciência de Brecht, o ator deixaria de ser meio, médium e se tornaria parte distinta no processo criativo do autor.Mas isso só funciona e relativamente na obra de Brechet, até porque exigiria um volume maior de autores com a mesma visão dele sobre o teatro e a sua importância transformadora na sociedade. O que não acontece com o método de Stanislaviski, o conceito dele foi e, é uma revolução no teatro, na maneira de interpretar.O ator é médium(ele nunca disse isso, quem diz sou eu) e, quanto mais, melhor.
Essa visão do papel do ator sobre o palco criou uma maneira de ver teatro e suas derivações, cinema, televisão, padrão.Temos dificuldade em crer na veracidade do personagem, em filme, teatro,performances, quando o ator está distanciado do personagem que interpreta.O melhor ator é aquele que deixa de existir e funde-se com o personagem.
Na reportagem que realizou, como apoio a matéria, Ednei destacou no cinema atores que interpretaram Shakespeare,sem distinguir o teatro (onde ator não pode errar em cima do palco) do cinema, duas linguagens diferentes,mas vamos lá, destacando a do irlandês Kenneth Branagh em Much Ado About Nothing (Muito por Nada- que na tradução virou Muito barulho por nada), em detrimento de várias outras,incluindo na lista Marlon Brando e Mel Gibson. Esse filme é um pouco fora de todos os filmes,teatro filmado, sobre a obra de Shakespeare, a começar pelos atores, acho que o irlandês que o produziu e o escreveu não pagou um centavo a eles, todos estavam ali por puro prazer de interpretar, e há interpretações impagáveis, Michael Keaton faz um Dogberry simplesmente notável.É isso que a obra de Shakespeare provoca: a possibilidade sempre e única de uma interpretação magnífica do ator, além da profunda humanidade em seus personagens. É a síntese do teatro.É o teatro perfeito.Kenneth Branagh tem outra adaptação mais luxuosa sobre Hamlet, que tira o fôlego de alguns atores ao interpretarem aqueles enormes bifes do bardo de Stratford-Upon -Avon? Há uma lenda que diz que Shakespeare teria sido ator e há outra que ele teria sido Francis Bacon, filósofo, ensaísta,criador do empirismo, que deu a ciência atual a sua base. Estou mais inclinado a aceitar a segunda hipótese da lenda do que a primeira, pela profundidade dos temas abordados, a familiaridade e a intimidade com as intrigas palacianas, o conhecimento de culturas distintas, Romeu e Julieta é uma tema italiano anterior ao período de existência de ambos.Coisa que um ator, dificilmente alfabetizado, da época,(1500 e pouca coisa) poderia dominar com tanta maestria...Gênios existem e seja como for, qualquer um dos dois, a obra é coisa de gênio, não de um teatrólogo normal.E que textos!
Grandes atores ou grandes atrizes raramente pensam sobre o teatro, são, no máximo, grandes intérpretes.Por isso, existem tão poucos atores-autores.No Brasil, é possível contar nos dedos, Maria Clara Machado, Guarnieri, Juca de Oliveira, Plínio Marcos. Com esse último conversei várias vezes e chegamos a jogar futebol juntos,num time de pata duras, que jogava na periferia de São Paulo. Certa vez encontrei um dos originais de Quando as Máquinas Param num depósito que o Teatro de Arena e fiquei surpreso com a exigüidade do texto, possuía, no máximo quinze folhas de diálogo. Plínio Marcos fazia um teatro forte, revolucionário, na linguagem e extremante realista- e continua sendo representado.Lembro dele na estréia do Balbina de Iansã,(1970)na portaria do teatro atento aos espectadores pagantes e não pagantes como eu.
Mas, deixando as lendas de lado para falar um pouco mais sobre a influência, do trabalho critico de Bárbara Heliodora. Um diretor-autor de teatro me contou recentemente: -estávamos as moscas, o público só apareceu depois da critica positiva de Bárbara Heliodora”. No Brasil, no início desse novo século, pouca gente tem a capacidade e autoridade de dizer: -vá ver que é bom, vá que é importante, sem errar.Principalmente em uma área que sensibilidade vive na flor da pele e, é vivida com muito mais intensidade que, talvez, em qualquer outra área artística.E onde cada interpretação é única.
Voltando a tradução, para fugir das antigas fórmulas que usam uma linguagem empolada, ela optou pela coloquial e usa o tu e você, simultaneamente, na mesma frase: - é assim que falamos -diz ela, justificando. Língua é uso.A língua está a serviço dos artistas, dos criadores, assim como a cor, a tela ou objeto está para o artista plástico e não ao contrário.A opção da tradutora é correta.Até que o português que falamos atualmente fique arcaico, lá pelo século XXII.Meus aplausos para Bárbara Heliodora.



Escrito por Marco Celso Huffell Viola às 21h51
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