Marco Celso Huffell Viola


Exumando pó ou o filho do barbeiro de Fernando Pessoa

Marco Celso Huffell Viola


A mídia e um círculo de parasitas que navega entre as academias adora comemorar, festejar a obra de autores, sejam quais forem, e os centenários,então, são o motivo ideal, cem anos disso ou daquilo.No ano seguinte a obra é esquecida e, na mesma velocidade, um novo autor “centenário” é rememorado. E, todos esses comemoradores, mordem e ganham alguma coisa com isso, ou seus quinze minutos de fama ou dinheiro mesmo.
Agora chegou a vez dos 120 anos de nascimento de Fernando Pessoa. Por que 120 anos?Não entendo a razão de não comemoraram os 119 anos de nascimento ou 121, ou 119 e um quarto... Um recente documentário da Globonews sobre os 120 anos de nascimento de Fernando Pessoa só mostrou o quão foi pequena ou miúda (como dizem os portugueses) a vida de um dos maiores poetas da língua portuguesa e menor ainda a imaginação do repórter, que a determinado momento chega aproximar o poeta português a Leonardo da Vinci em função de duas invenções dele, a carta-envelope e a máquina de escrever com tipos móveis,invenções essas das quais não existe o menor registro.
Por mais que o jornalista buscasse alguma coisa, revirando velhas anotações, fotos, parentes, mais distante ficava da obra do poeta. E, surge a clássica entrevista com um “estudioso,especialista” junto à estátua de bronze que paralisa em metal uma também fase miúda e magra da vida do poeta como se aquela fosse a verdadeira imagem dele.Uma caricatura em metal como tantas outras que povoam as praças do mundo de fantasmas inúteis que só servem para abrigo das pombas ou para os ladrões de bronze.
Dos especialistas,parentes, sobre a vida de Fernando Pessoa, não havia nada mais a declarar sobre ele que já não se soubesse.Em determinado ponto do documentário o jornalista resolveu entrevistar o filho do barbeiro do Fernando Pessoa...Incrível.Há no documentário, também um filme da ex-namorada, do poeta. Pra quê?Vê-se a distância uma senhora com rosto comum, pateticamente, já morta, abanando de uma janela.Nonsense puro.
O poeta não deixou a guarda de sua alma em fotos, parentes desimportantes ou mesmo no esquema de elétricos feito por ele para encontrar com a namorada.Aquilo tudo está velho desfocado,amarelo. O que ele deixou de importante foi a sua obra, não sua vida.”Viver não é preciso.”E ele viveu pouco, quase nada, o suficiente apenas para escrever.Homenagens nunca as teve,apenas um livro publicado durante sua existência física.Mas isso não interessa esses exumadores de pó como se apenas a realidade vivida pelo poeta possa revelar ou dizer sobre sua identidade,impossível para alguém que em toda a sua obra negou a sua.A vida prática do poeta português, a não ser seu encontro com Alesiter Crowlewy e a correção de seu horóscopo, nada teve mais rumoroso,importante, nada absolutamente nada estranho ou digno de nota, ao contrário da obra. A sua vida pode ser comparada aos brasileiros Drumond e Manoel Bandeira,uma vida comum, banal,cuja vida interior é muitas e várias vezes mais rica e habitada que a vida exterior.
A obra do poeta é sua vida interior,o exterior é apenas um rasgo, uma fresta aonde o verdadeiro poeta espia.Há, as exceções, quando a vida do poeta mistura com sua arte,então, existe algum significado associá-los,mesmo assim não completamente, poesia não é arte da realidade. Recentemente ouvi um desses analistas da obra alheia, ansioso por declarar algo importante,sobre Mario Quintana.Contemporâneo de Mário (eram colegas de redação) ele falou sobre o poeta:“aprendi mais com o silêncio de Mário do com que com suas palavras.” Traduzindo: o poeta não falava com ele. Não dava a mínima importância a esse analista futuro de sua obra.
Não é ótimo?
A necessidade de aduzir, enxertar-se na pessoa da poeta é tanta que vale tudo, mesmo que isso seja completamente insignificante e desnecessário.Mas o que afirmo aqui pode ser associado a outros gêneros de arte, todos têm os seus “especialistas, não criativos” sem luz própria que precisam para sobreviver, se aquecer como mariposas na luz alheia.
Aliás, o filho do barbeiro de Fernando Pessoa perdeu a oportunidade de recolher algumas fiapos do cabelo do poeta ou de sua barba e guardar para posteridade se soubesse, na ocasião, de quem se tratava.E se fosse um filho de barbeiro com imaginação poderia dizer até que Fernando Pessoa pagava com versos ao corte de cabelo do fígaro seu pai.Mas não, tanto ele como o repórter eram um pouco sem imaginação e ficamos nós todos pensando o que poderia fazer um poeta dentro de uma barbearia, imagino que ele também poderia ter escrito o poema A Barbearia, auxiliando, e muito, as entrevistas futuras do filho do barbeiro...Ficou-me a impressão (ou me ficou a impressão?) que o poeta não gostava desse barbeiro e preferia o dono da tabacaria, resta saber se existe algum sobrevivente dessa loja onde ele comprava seus fumos, e se ele aparecer, certamente, vai colaborar apenas com a nossa compreensão da capacidade pulmonar do poeta ou vai esclarecer e espalhar mais fumaça sobre a obra de Alberto Caieiro ou Ricardo Reis?



Escrito por Marco Celso Huffell Viola às 02h24
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Mídia medíocre

Por mais dez anos fui setorista na área e economia de vários jornais,onde cheguei a exercer até a função de colunista fantasma de um colunista preguiçoso, além de ter realizado vários cursos e seminários de especialização sobre economia. Sempre entendi o jornalismo econômico como qualquer outro setor dentro de um veículo de comunicação, como um tradutor dos acontecimentos ou fatos. O jornalista funcionando como um filtro, com alguma reflexão ou mesmo buscando mais de uma visão de um mesmo acontecimento, possibilitando ao leitor uma melhor escolha e compreensão sobre o relatado.
Esse jornalismo sempre foi diferenciado do chamado jornalismo chapa branca que proliferou nas décadas 70/80, mas não deixou de existir e repete e repetia apenas a voz do dono, sem critica ou reflexão. Enquanto na década de 70/80 o jornalismo estava amarrado e amordaçado por censura, na década de 90 a censura econômica aperfeiçoou o serviço, e a critica e a reflexão, no jornalismo, ao ceder ao poder econômico ou ao se tornar política ideológica e/ou partidária atirou ao brejo qualquer possibilidade de seriedade.
Revendo recentemente uma retrospectiva do programa Manhattan Connection- um dos mais antigos programas de televisão por assinatura no Brasil, com 15 anos de existência- ficou bem claro que os melhores momentos do programa foram aqueles em o jornalista Paulo Francis esteve presente. Em 15 anos de programas semanais foi só o Francis que produção conseguiu encontrar. A retrospectiva terminou sendo uma homenagem merecida a ele.
Paulo Francis, antes e tudo, era um jornalista que amava e respeitava a sua profissão, quando presente, no programa, os outros participantes eram meros coadjuvantes diante do brilhantismo contraditório de Francis,”só as pessoas inteligentes são contraditórias”, dizia ele com razão, “a unanimidade é burra”, completaria Nelson Rodrigues.
Entre as várias questões apontadas por Francis estava uma critica a linguagem do jornalismo contemporâneo, voltado para uma mídia réles, simplória, repetitiva e de linguagem empolada.Em um dos momentos, Lucas Mendes fala de alguém, que ele, Lucas, considerava um grande jornalista, Francis pede, então, que cite uma frase, uma única frase desse jornalista: ”-Me cita uma frase, uma só, dele”,diz, e Lucas não consegue, sem se dar conta que o que Francis queria, e afirmava, naquela solicitação, era que o jornalismo é feito de frases e opiniões.Se o jornalista não é capaz de formular uma frase inteligente, não possuía opinião, não era um grande jornalista.
Francis fez parte de uma estirpe que deu grandes nomes ao jornalismo do Brasil, como Nelson Rodrigues, Rubem Braga, Stanislau Ponte Preta, os também poetas Paulo Mendes Campos e Millor Fernandes, entre outros que estiveram também no Pasquim e renovaram a linguagem do jornalismo brasileiro..Acontece que esse jornalismo que Francis praticava,é raramente feito hoje no Brasil.Toda aquela simplicidade,análise e despojamento da linguagem, duramente adquirida pelo Pasquim, perdeu-se no tempo, retrocedeu.
No próprio programa Manhattan Connection, depois do Francis, a critica é rápida, rasteira e desaparece do programa,quando não fica unívoca, não se vê frases inteligentes,brilhantes, mas sim um programinha de dicas novaiorquinas e algumas discussãozinha sobre fatos menores da mídia norte-americana, aquela viceralidade que era dada pelo Francis hoje,esta dividida em patéticos comentários que mal conseguem ultrapassar o nível da banalidade.

Profetas do dia seguinte
 
E essa banalidade interpretativa empolada pode ser amplamente apreciada em vários telejornais e jornais brasileiros e para citar um exemplo, no recentemente programa exibido na Globo News Espaço Aberto- Crise Externa Qual é a Natureza da Crise?1 Nele,uma das principais setoristas de economia da Rede Globo, entrevista dois bem nutridos economistas brasileiros que deitam sabedoria sobre a crise norte-americana, que ninguém atualmente sabe qual é o tamanho do rombo e que derruba por terra várias gerações de expertos ou espertos, economistas, inclusive estes, que se soubessem que ela estaria por vir certamente teriam ficado milionários,aplicando ou indicando aos seus clientes onde aplicar seus recursos em locais protegidos dessa crise. E a prova mais contundente que nenhum desses economistas sabe exatamente o que está falando e que são profetas do dia seguinte,é a pergunta: Como não sabiam que a economia norte-americana é uma bolha vazia já há vários anos?E com tantos cálculos econômicos disponíveis não sabiam quando ela chegaria ponto de arrebentar?
Que a economia norte-americana deixou de viver de sua riqueza e parou de poupar a muito tempo, para viver da poupança do resto do mundo,é sabido desde a década de oitenta, quando o controle do petróleo passou para mão dos árabes e os carros japoneses entupiram os quintais, antes produtivos de Detroit –os recentes documentários do Michel Moore são bastantes claros a esse respeito- a transferência dos empregos para países onde havia mão-de-obra mais barata e os fabulosos investimentos especulativos árabes na economia daquele país, terminaram por deixar o quadro de artificialidade bem visível.
Até onde se sabe todo o sistema capitalista está alicerçado em três bases, setor primário, setor secundário (indústria) e serviços (há escritórios na Índia que encarregados de fazer o imposto de renda de empresas norte-americanas).Não apenas a riqueza norte-americana se espalhou para todo lado, como os empregos, ficando apenas o que era mais barato fazer e produzir no país,nem a recente e multimilionária indústria eletroeletrônica escapou,procurou Taiwan, China, Índia,e assim, o crédito substituiu a produção, mais cedo ou mais tarde, alguém teria que pagar a conta.
Não duvide se dentro alguns anos os mexicanos não tenham que fechar as suas fronteiras aos norte-americanos que podem inverter o fluxo correndo para lá em busca de uma vida melhor..
Se estes profetas do dia seguinte fossem tão sábios assim, um Banco com 105 anos, como Barins não teria quebrado com o cofre cheio de análises econômicas, sobre todo o mundo, e salas abarrotadas de economistas bem nutridos e com apenas um operador mal intencionado na Ásia.Ou não teria acontecido o recente rombo suspeito num dos mais importantes bancos franceses, que na minha opinião, preferiu comprar a culpa de um funcionáriozinho do quinto escalão do que jogá-la sobre a diretoria por aplicações mal feitas na bolha vazia norte-americana, no valor de sete bilhões de dólares. É muito dinheiro para alguém do final da fila do banco mexer sem ter até os parentes colaterais de quinta geração muito bem vigiados.
E, vem, um destes economistas brasileiros depois de meia hora usando a palavra commodities, dizer que a época de ouro acabou. Frase imediatamente repetida pela entrevistadora do programa, sem nenhum critério e análise maior por parte dela.
Mas que época de ouro, cara-pálida?Época de ouro de quem, acabou?Dos norte-americanos?Não me parece que eles tenham vivido numa época de ouro nos últimos vinte anos,mas com desemprego e recessão.
Então, vamos continuar dividindo a conta que não fizemos? Será?Durante o governo Reagan o Tesouro norte-americano resolveu subir os juros para conter a sua inflação (sem olhar para o lados) e quebrou o México que mandou um bilhetinho para Washington, dizendo: “não podemos pagar a conta”. E foi criado o chamado efeito Tequila em que o Brasil entrou junto,o culpado, ora, é claro, o México.Os economistas bem sentados, aqui em vários locais do mundo ao contarem essa história, até hoje, lançam pedras no México. 2
A era Reagan acabou sem que aparecessem os prometidos empregos e o fim da recessão, o Clinton não conseguiu nada além de azarar uma estagiária e fazer com que os homossexuais tivessem direito de freqüentar as forças armadas. Os Bush, republicanos, arrumaram duas guerrinhas na mesma região para ver se melhoravam as finanças internas e faziam com que opinião pública do país deixasse de se preocupar com problemas tão simples como subsistência, continuou tudo igual.Só adiaram o problema.
O sistema capitalista tem infinitas formas de se adaptar,é um perfeito camaleão, quem disser o contrário não andou lendo história ultimamente,ganha com tudo, incluído a desgraça alheia, quebra uns bancos aqui e ali, outros engordam,desfazem-se algumas fortunas,criam-se outras, alguns milhares de norte-americanos perdem suas casas,surge uma novo mercado de residências recicladas ou coisa que valha, e segue o baile, até a próxima crise.
Mas nós aqui, no quintal, pelo que sei, nunca vivemos uma época de ouro e sim, continuamos numa época de metais menos nobres,e miseráveis como sempre fomos, mas e estamos muito bem em algumas commodities como, ferro, petróleo,grãos, carne,laranja etc, continuamos em alguns lugares, com mão de obra escrava e, é impossível perder o que nunca tivemos, uma época de ouro, por exemplo.
Mas perdemos a capacidade de critica e análise e a simplicidade de traduzir os fatos, isso sim.
1) Exibido em 13.03.2008.
2) Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano- de autoria do colombiano Plínio Apuleyo Mendoza, do peruano Álvaro Vargas Llosa e do cubano Carlos Alberto Montaner, com prefácios, de Mário Vargas Llosa e de Roberto Campos.



Escrito por Marco Celso Huffell Viola às 14h16
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Acredito na rapaziada... que rapaziada mesmo?

 

 

A Portelinha é a favela mais segura atualmente do país e a mais inocente.Seu líder comunitário não é traficante e, sim, um simpático sujeito corrupto e corruptor que para se manter e manter funcionando o seu império apenas faz extorsão dos comerciantes locais.Coisa que esses concordam amavelmente dando seu dinheiro para ver todo mundo sorrindo alegre, com todos os dentes, na favela.   Na Portelinha o tráfico não tem vez e ninguém empunha armas.Na recente guerra pelo poder dentro da favela, os simpáticos personagens principais esconderam-se atrás de uma mesa de bilhar para se defender das balas dos fuzis AR15 da facção contrária e, só morreram os personagens idiotas, os espertos sobreviveram todos.Por outro lado, a tropa de elite não invadiu e nem atirou em ninguém. È máximo que a ficção nacional novelística conseguiu atingir.

Os roteiristas da novela exageraram na dose de realismo parafantástico, com essa novela, mostrando como é bom viver numa favela na cidade maravilhosa,samba, suor e cerveja à vontade o ano todo.O poder público do Rio de Janeiro deveria aceitar as sugestões dos roteiristas da novela e mandar seus funcionários fazer um estágio mais intenso com o administrador da Portelinha para estender o seu modelo para outras favelas do Rio, multiplicando-o, já que é um exemplo completo dos tempos da bela e poética malandragem do Rio de Janeiro,artigo que o país deveria colocar na sua pauta de exportação tamanha aceitação nacional como exemplo de viver bem com o esforço alheio, com a mulher alheia,com o dinheiro alheio.A música de Gonzaguinha que pontua as cenas do personagem principal é outra descaracterização da intenção da própria.A rapaziada a que se refere, com certeza, não é personificada pelo personagem de Antonio Fagundes.

E continuando o baile de absurdos, a Universidade particular aproxima-se da favela para captar novos alunos que precisam fazer um prova muito rigorosa, quando se sabe que isso acabou no Brasil, alguém precisa atualizar os roteiristas nisso também, o chamado vestibular  da maior parte das universidades pagas não passa mais de uma  redação  que pode ser feita de qualquer jeito que o candidato é aprovado imediatamente,bolsas integrais? Onde?Só para os moradores da Portelinha.E a Universidade pública, sumiu...Não quer saber de aluno que mora em favela.

 O tratamento dado ao racismo chega as raias do deboche, por um lado,  dois personagens vencem a tudo e a todos os preconceitos com o amor e um filho,por outro, uma acusação falsa que mancha o caráter ilibado de um professor  sugerindo que o acusador se vale da pigmentação de sua pele para obter vantagem monetária em conluio com um corpo doscente caricato de uma universidade mais caricata, com uma diretoria  hilária e muito mal educada.Todos os personagens ficariam bem num sanatório para doentes mentais incluído os figurinistas que não acertam os óculos para conseguir fazer com que o ator José Wilker consiga uma olhar de intelectual inteligente e não de amante pouco entusiasmado da loira falsa, dona da Faculdade.

Do lado do mal, está outro escroque que é do mal porque não é risonho, mas é tão chantagista e ladrão quanto  o personagem principal da novela e, é também estereotipo dos empresários nacionais quase sempre retratados como indivíduos sem caráter, ladrões por índole que não medem esforços para realizar suas empresas e, para conseguir vencer, são capazes de roubar até moças ingênuas e indefesas.

A caricatura quando bem feita, em ficção, quando bem realizada tem valor,Dias Gomes e mesmo Janete Clair não deixaram bons herdeiros no ramo dos novelistas nacionais.Tanto o molde quanto o resultado dessa novela é lamentável.



Escrito por Marco Celso Huffell Viola às 11h49
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Nazismo e o DNA criminoso

  

Marco Celso Huffell Viola

 Quando Aldos Huxley  publicou Brave New World, em 1932 (Admirável Mundo Novo, na tradução para o português)a civilização industrial dava os primeiros passos e a grande novidade era o início da produção em massa dos carros Ford.

Huxley na sua criação imaginou uma civilização onde as pessoas fossem também produzidas em massa e criados seres perfeitos que pudessem ser corrigidos, caso houvesse algum erro na sua fabricação,possibilitando assim o surgimento de escravos que não criassem problemas sociais, bem como seres superiores.Parte da civilização criada pelo escritor inglês chegou mais rápido que, talvez, ele próprio imaginasse. Antes da Segunda Guerra e, durante, os nazistas começaram a fazer experimentos nesse sentido, tentando realizar uma raça pura através das casas de acasalamento onde eles reuniam casais com ancestrais arianos  tentado gerar filhos perfeitos.O resultado foi o que o que se viu, apesar de todo os cuidados, nasceram muitas crianças com defeitos físicos inexplicáveis.O que eles fizeram, além disso, buscando esse resultado está documentado demais, mas nunca é demais falar sobre o assunto. 

Hoje se sabe que essa idéia de raça pura  não nasceu sozinha havia uma arcabouço cientifico que a sustentava a eugenia ((do grego- bem nascer) o termo foi criado pelo matemático inglês Francis Galton, primo de Darwin  e estuda as melhores condições para reprodução humana.A ciência que começou par e passu com o darvinismo  continua viva hoje, bem mais modernizada  e virando negócio nos bancos de DNA e nas pesquisas que envolvem esse novo caminho da ciência contemporânea.

E a questão do envolvimento ético dos cientistas  volta com a toda  sua força quando se fala em uma pesquisa como a que deverá  ser realizada com jovens prisioneiros da Fase(antiga Febem, troca o nome, mas a situação dos jovens prisioneiros continua idêntico), e jovens considerados não-violentos, pelas duas das principais universidades do Rio Grande do Sul, onde se pretende estabelecer parâmetros que conduzem a descoberta da origem da violência nos jovens aprisionados através, do inclusive, estudo do DNA.

A pesquisa lembra em tudo as práticas nazistas, prisioneiros sendo submetidos à investigação da ciência armada fisicamente e com toda a sabedoria de um psicologia pífia,de parâmetros subjetivos, quando se sabe que o pesquisador interfere no resultado da mesma, sem levar em consideração a situação física e psíquica dos apenados. Compará-los com jovens que não estão na mesma situação, é coisa de uma infantilidade primária.

E correndo por fora chega à nova deusa da ciência atual, o DNA.

Essa confiança irrestrita e sem controle numa ciência que usa o dinheiro público,- uma vez que Universidade Federal do Rio Grande do Sul o utiliza,- na busca aparente do bem estar coletivo,nem sempre pode ser o que aparenta ser. Numa sociedade organizada ou que se pretende como a nossa, é importante salientar que essa mesma confiança  levou  a ciência  aos erros, com os já citados, e a  médicos que castravam os pobres  ou recomendavam a lobotomia como cura para distúrbios psíquicos, entre várias outras atrocidades que não convém enumerar aqui.

É preciso estar muito atento a isso.

Vamos tecer algumas hipóteses: E se apenas a pesquisa de DNA consegue descobrir  que existe um gen da violência? Os portadores desse gen serão separados do resto da humanidade?Com quê?Com marcas adesivas?Tatuagens?Com chips subcutâneos? Confinados já ao nascer? E, se esses brilhantes pesquisadores descobrem, também, que determinadas pessoas têm tendências a carregar mais peso(como burros de carga) que outras, vamos separá-las para usá-los como  serviçais?

No gado isso já está sendo feito, agora cabe a nós decidir o quanto somos gado nas mãos de uma ciência que esqueceu a ética em algum canto do seu bolso.

Eis a sociedade de castas previstas por Huxley e tentada realizar pelos nazistas e que os pesquisadores na santa inocência( que não acredito que a tenham,deve ser mais barato, mais fácil e  mais cômodo-menos repercussão negativa social- fazer essa pesquisa aqui, do quem em países mais avançados) buscam encontrar aqui no Rio Grande do Sul. Se a sociedade que cerca esses pesquisadores ficar indiferente ao que eles fazem, justificados por seus títulos acadêmicos, talvez um dia eles consigam criar essa sociedade de sonho  totalitário.

Sugestão de leitura

Admirável Mundo Novo-Editora Globo
1984- George Orwel- Editora Nacional
http://super.abril.com.br/superarquivo/2005/conteudo_79720.shtml



Escrito por Marco Celso Huffell Viola às 00h39
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Até quando seremos uma nação de perdedores? O Dólar Furado

Aparentemente está em curso no país mais um estelionato do governo federal contra a nação.

Talvez agora fosse a hora da Polícia Federal montar mais uma operação de nome misterioso que, sugiro que, desta vez seja  o Dólar Furado e começar a investigar, mesmo, a própria casa. Ou seja, o governo federal. Ou talvez, isso seja obrigação do, quem sabe,  Ministério Público.

A razão da necessidade de uma investigação, na minha opinião, está alicerçada na opinião de um importante jornalista de economia, sobre a recente queda do dólar.Ele não sugere isso, essa investigação, quem sugere sou eu, afinal, como cidadão desse país tenho todo o direito de exigir que o poder público funcione adequadamente e não prejudique a nação que representa.

De acordo com o respeitado jornalista de economia Luis Nassif, a recente queda do dólar está alicerçada em acordos um tanto suspeitos, diz a coluna dele do dia 16/05/2007 que tem como título As gambiarras e o câmbio  http://luisnassif.blig.ig.com.br/

Algumas semanas atrás chamei a atenção para o acerto em curso entre a ANFAVEA (Associação Nacional dos Fabricantes de Autoveículos) e o novo Ministro do Desenvolvimento Miguel Jorge. De repente, o ex-presidente da ANFAVEA Rogério Goldfarb mudou de opinião e passou a dizer que a apreciação cambial não era problema.Estava na cara o início do processo de acertos com os setores mais influentes, para calar a crítica contra o câmbio.
Ontem, entre os setores “desprotegidos” que serão beneficiados com redução de tributos e encargos, estava o sofrido setor automobilístico brasileiro
”.

A denúncia do jornalista, para mim, é grave, mais alguém dá importância a ela?

E a conta? Quem vai pagar esses acordos, não bem explicados?

Aparentemente toda a sociedade brasileira, todos os que estão do lado de fora do governo e dessas grandes empresas, ou seja, todos os que não se beneficiam com a especulação de um câmbio mantido artificialmente com o chamado dinheiro público.

E a mídia? Porque está a favor?O próprio Nassif em entrevista a Tv Cultura no dia 15 de maio explica: toda a mídia aumenta seus lucros na compra de material importando, tvs a cabo, revistas, etc, têm lucro com o dólar baixo.

Há setores da mídia exultantes com esse dólar furado e o  exagero é tanto que, segundo Nassif, uma repórter de tv a cabo sugeriu a  candidatura do atual presidente do Banco Central nas próximas eleições para a presidência da república.

Não é uma beleza?

Como é a segunda vez que acontece isso, em duas administrações subseqüentes, na primeira foi no governo Fernando Henrique que, segundo consta, já fez a sua mea culpa sobre esse “erro” econômico.

Não consigo imaginar que seja a repetição não intencional de uma mesma política, mas de uma política intencional para beneficiar os mesmos setores em detrimento de toda a economia do país que perde sempre. Aumentamos empregos na China e, em vários outros países onde os empresários brasileiros fazem compras ou grandes negócios com o dólar baixo. Perdem-se empregos aqui, quebram empresas pequenas ou seja, perdem todos. E quando a economia do país como um todo perde, repito, perdem todos.

Será que não chega desse país ser um país de perdedores?

 



Escrito por Marco Celso Huffell Viola às 11h00
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Cultura não é entretenimento- ou então vamos criar o ministério do entretenimento



Sou fã de carteirinha de Gilberto Gil há muitos anos, compositor e músico sensível como raros no Brasil, não fiquei admirado com a sua aproximação com o atual governo. Gil sempre foi um artista engajado nas lutas sociais, sofreu com a censura no período da ditadura e mesmo depois continuou atuando politicamente, além de manter a sua carreira de músico e compositor. Atitude incomum nos artistas brasileiros, contemporâneos, que preferem ignorar o seu em torno ou então, mantém atitude de alienação, como se o artista estivesse fora do mundo,quando não têm atitudes meramente reativas ao noticiário da mídia, porque perderam a capacidade de refletir sobre a realidade adjacente.
Não sei se Gil precisou assinar ficha em algum partido para atuar como ministro da cultura, o que não chega a ser relevante. Também não achei inadequada a sua indicação, li várias entrevistas onde ele dizia acreditar ser possível atuar dentro do governo e auxiliar a melhorar a realidade do país.
Houve ocasião em que ele foi vaiado por estudantes insatisfeitos com o seu ministério e do da educação.Pensei que depois disso ele iria se afastar do governo já que como artista popular nunca havia sofrido uma vaia ou condenação do seu trabalho pelo público. A ligação entre política e a arte quando se torna muito presente na obra do artista, acaba prejudicando a arte do mesmo.Fica mais difícil separar os dois, quando o artista põe a sua arte a serviço da política.E, nessas ocasiões, raramente o público separa o artista do político que exerce um papel momentâneo na vida do país.
Minha admiração pelo seu status de político aumentou depois disso, mesmo sabendo que o Estado que ele representa quase nada tem feito de importante para a cultura, é possível contar nos dedos as novidades surgidas nesse governo na área cultural.As leis de incentivo continuam a mesma droga de sempre, a do livro, não afetou em nada o preço final do livro, teatro, música clássica, todas as artes e artistas, todos, invariavelmente, continuam correndo atrás de patrocínio privado, não existe realmente uma política pública real de apoio à cultura nesse país.Não posso condenar o ministro por esse quadro que vem de longa data e não sei mesmo o quanto de novo ele tem feito para modificar essa situação ou apenas segue apagando incêndios.
No dia 8 de maio ele deu uma entrevista ao Observatório da Imprensa sobre as novas políticas para tv e internet.Durante a entrevista mostrou todo o seu entusiasmo com a criação desse novo sistema que começa a ser apoiado pelo atual governo e que pode realmente possibilitar a democratização e a pulverização da cultura no país, através da facilidade do acesso ao uso maciço da tv e internet, se tudo o que se diz sobre o assunto for realmente verdade.
Na longa entrevista que o ministro deu a Alberto Dines, na minha opinião, resvalou em apenas um assunto: Confundiu cultura com entretenimento.
Mas essa não é uma confusão só dele, o repórter Dines, mesmo com larga experiência que tem, entrou na do ministro e pareceu acreditar que cultura é sinônimo de entretenimento ou as duas são a mesma coisa.Se alguém tem alguma dúvida sobre isso basta ir atrás do dicionário para conhecer a distância abissal entre as palavras e o significado de cada uma.
A noção que cultura é entretenimento (ou diversão, para usar um sinônimo mais adequado) começa a partir da segunda guerra mundial com o predomínio cultural norte-americano sobre a arte. E nenhum segmento artístico ficou imune a isso e, a televisão brasileira, que era o assunto em debate do ministro com o jornalista, seguindo o mesmo padrão da tv americana tornou-se sinônimo de diversão ou entretenimento.Mas é preciso que alguém diga ao ministro, que também, até onde se sabe, ele não é um ministro do entretenimento e sim da cultura, que a cultura está acima, além e também subjacente ao entretenimento.Você pode ver um programa de televisão na Bósnia, cópia de um programa de televisão americano que, mesmo assim, os bósnios vão se comportar como bósnios e falar como bósnios, ou seja, cultura é o que faz um sujeito ser bósnio ou não bósnio.Entretenimento é o que os bósnios fazem pra se divertir, ocupar seu tempo ocioso como bons bósnios que são.
O entretenimento é um aspecto da cultura e não a cultura em si.Será preciso ser mais específico que isso?
Se a arte, a filosofia ou a educação, por exemplo, fossem feitas apenas para entreter talvez vivemos no melhor dos mundos e a nossa vida fosse um show permanente onde passaríamos cantando e abanando os braços para cima, feito idiotas, ou num filme hollywoodiano onde viveríamos iluminados pelos holofotes.
Continuo fã do artista, do ministro nem tanto apesar da confusão sobre esse assunto não ser só dele.Agora, que esse país está precisando muito de cultura isso está.


Escrito por Marco Celso Huffell Viola às 17h05
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Um textinho de Cecília Meireles-e um pouco de tv aberta

 

Pedro Bial em um dos últimos episódios da série BBB7, para criar um clima na despedida de mais um participante, resolveu ler um “textinho de Cecília Meirelles”, os participantes que não tinham a mínima noção de quem é/ou foi Cecília, ficaram sem entender a razão da leitura do “textinho”, o respeitável público também não entendeu, porque também não conhece uma da maiores poetisas da língua portuguesa e sem exagero da poesia ocidental.
Bial que foi um dos jornalistas importantes desse país, parece que resolveu jogar o seu currículo de grandes reportagens e entrevistas como as realizadas com Darcy Ribeiro, João Cabral de Mello Neto, entre outras, no lixo da comunicação imbecil e rasteira. E tem surtos como esse, onde tenta aparentar algum aspecto de intelectual e acaba atirando na banalidade o nome de Cecília Meireles em um programa realizado para 50 milhões de semi analfabetos ou analfabetos culturais, com participantes semi-analfabetos apresentado por um jornalista que esqueceu ou nunca teve a noção entre o importante e o fácil.
É fácil enganar um povo como o nosso, carente de tudo.
Basta brincar com a esperança daqueles que nada tem, constranger mulheres de poucos recursos a mostrar seu corpo e o diabo dá risada feliz a cada domingo que os índices de audiência empatam entre as mais importantes emissoras do país.
E, essas emissoras, sem nenhum compromisso com nada a não ser com o seu faturamento, exploram a credulidade, empurram pseudomúsica, pseudocantores, pseudo-atores guela abaixo dessa multidão de miseráveis.
E vamos rir do sujeito que caiu no chão, que caiu do telhado, que caiu, que caiu de algum lugar, que levou uma pancada, tudo narrado por um apresentador mal educado e grosseiro.
Aliás, a grosseria é marca registrada de alguns programas, onde a grosseria intitucionalizada tenta aparentar independência dos valores mínimos de convivência social e respeito físico pela integridade do próximo quando na realidade demonstra é falta de inteligência em fazer algo melhor.
E o resto da programação segue num ritmo de gincana, de todo o tipo, cada uma mais infantil que outra.
Quando não aparece um padre cantor, numa emissora católica, travestido de padre, usando um sobrepeliz vermelho que canta rebolando em cima do altar em meio a uma missa, cantando canções que ofendem a mínima noção do que seja música e letra. E outro, na mesma emissora católica, oferece à venda uma jóia em forma de cruz com terra recolhida em Israel.O clip da busca dessa tal “terra santa” pelo padre nada fica a dever aos clipes mais bregas da MTV, é de arrepiar, chega a ser pornográfico, o padre caminhando descalço, olhando para o infinito, entre as águas do Rio Jordão.Repulsivo.
Enquanto isso, a igreja diz que faz, esse ano, a campanha da fraternidade sobre a Amazônia e essa emissora de tv não realiza um documentário, uma notícia, uma pesquisa sobre a Amazônia e, depois da missa, volta o padre cantor a repetir ladainhas para uma imagem de um santo pregada na parede.E repete suas frases com tanta veêmencia, que só sendo santo pra aguentar um chato daquele tamanho.
Mas, enquanto a tv católica ignora a Amazônia, a outra, para enfeitar a sua grade de programação, gasta alguns milhões para produzir uma série sobre da Amazônia com veleidades sociais, utilizando uma mistura de textos que a autora não credita a ninguém a não ser a sua genialidade. Mas isso é para ser exibido às 23 horas, quase proibido para os menores em inteligência e percepção que podem interpretar mal aquelas questões de conflitos agrários que terminam por glamourizar e mitificar a luta de Chico Mendes e tantos que morreram naqueles conflitos que continuam ocorrendo, tornandos palatáveis e de fácil assimilação, tirando desses conflitos agrários o que tem de importante em troca de uma maquiagem mal feita, mas de aparente bom gosto.
Em nome da audiência criada e forjada pela estrutura dessas programações, há personagens como Jô Soares cujo programa copia os modelos de talk show norte-americanos, e que tem por objetivo de fazer rir permanentemente uma platéia escolhida de estudantes, que autentica a mediocridade das entrevistas. Quando eles riem, a entrevista vai bem, quando eles ficam quietos é hora de chamar as vinhetas e trocar o entrevistado.
Em recente entrevista realizada com o poeta Affonso Romano Santana que divulgava dois livros seus de poesia, na ânsia de agradar o auditório, ele pergunta se o Affonso não conhecia nenhuma quadrinha de banheiro.
Pior que essa, só a tv italiana ou da Libéria, se a Libéria tiver tv aberta.


Escrito por Marco Celso Huffell Viola às 20h46
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Vamos tirar os espinhos dessas periferias – miseráveis, fisicamente e culturalmente - I

Marco Celso Huffell Viola -Porto Alegre


Emanuel tocou em seu último post num assunto espinhoso, a droga.
Como havia terminado recentemente a leitura do livro Abusado[i] do jornalista Caco Barcellos resolvi falar também sobre o assunto. No livro, Caco realiza uma reportagem investigativa sobre a vida de Juliano VP, codinome de um dos “donos” do morro Santa Marta no Rio de Janeiro entre a década de 80 e os primeiros anos do novo século quando foi morto na prisão de “segurança máxima” Bangu 1, em julho de 2003.
Caco reconstitui a história desde os primeiros habitantes do morro Santa Marta, imigrantes nordestinos que se estabeleceram ali com a ajuda de don Helder Câmara e passa pelos sucessivos “donos” do morro até chegar a Juliano VP que se torna “famoso” quando consegue a presença no morro do cantor Michel Jackson para a realização de seu clipe musical, garantindo também a sua segurança, o que foi considerado uma afronta direta a Secretaria da Segurança do Rio de Janeiro.
O livro é uma reportagem longa sobre o que todos sabemos, que o Brasil vive hoje em duas sociedades distintas com leis e comportamentos completamente diversos.
No Rio de Janeiro 2,5 milhões de pessoas residem nas 400 favelas da cidade.
Esses enclaves periféricos nas grandes cidades são resultado de todos os múltiplos desacertos sociais -políticos e econômicos - dos diversos governichos que conduziram esse país nos últimos 50 anos e terminou por fortalecer a criação de sociedades paralelas, estados autocráticos tão fortes que podem enfrentar o chamado Estado de direito ou a sociedade, sem receio, com recursos e armas superiores.
A noção do Estado de direito, uma das conquista da democracia, bem como noções básicas de justiça não existe nessas realidades. A lei e a justiça é executada de acordo com vontade dos donos do morro e seus prepostos, e a ela estão sujeitos e envolvidos todos os que ali residem, homens e mulheres.Numa das batalhas travadas para devolver a liderança do morro para Juliano VP a organização da mesma ficou a cargo de mulheres ligadas a ele que se associaram a um grupo de outra favela que as apoiou com homens e armas.
As estatísticas e notícias a respeito disso são tão comuns que terminam tornando indiferente a sociedade que vive em torno dessa realidade, realidade essa que também é glamourizada pela mídia ávida de lucro atrás de “sucessos” musicais, e de novas “tendências” nessas periferias miseráveis fisicamente e culturalmente. E a mídia, também, apresenta como novidade inserção dos menores de idade no circuito da droga, que só tem a porta de entrada, não a de saída.
Mas vamos falar um pouco mais de violência. Um trecho do livro:
“Uma implicância sem fundamento ou a necessidade de provar o seu poder de perversidade também eram motivos pra Raimundinho multiplicar os tribunais. Ele chegou a executar uma mulher Irana, de 50 anos, apenas para competir com os carrascos do Cerro Corá, gerenciado pelo amigo Bruxo, que havia matado uma adolescente chamada Choquita. Raimundinho soube que o corpo fora esquartejado em trinta pedaços, postos dentro de uma mala e desovado no meio caminho no meio da floresta, ligação ente o Cerro Corá com o Santa Marta.Dias depois Raimundinho fez a mesma coisa com Irana, que alegou ser informante dos inimigos.Mas para impressionar os amigos do morro vizinho, em vez de trinta, esquartejou em cinqüenta pedaços e mandou jogarem a mala na mesma trilha da floresta”.(pág 220 )
Os exemplos de crueldade se multiplicam, não apenas no livro. Essa crueldade é diária e constante e, é apenas caricatura de uma sociedade cujos únicos valores perenes são o poder do dinheiro e das armas que o garantem.
A droga é elemento secundário em todo esse processo, pode ser qualquer uma, maconha ou cocaína, como era o álcool na década de 30 nos Estados Unidos.
Segundo o livro de Caco, em setembro 2002 a renda mensal de um desses donos do morro com a droga era de 2 milhões de dólares.É importante notar, também, que os “donos” desses morros estão a serviço de patrões que estão fora dessa periferia.No caso de Juliano VP, ele fazia parte da estrutura do Comando Vermelho.
O Comando Vermelho foi criado em 1979 no presídio Cândido Mendes, na Ilha Grande (RJ) a partir da relação entre presos comuns e militantes da Falange Vermelha que combatiam o regime militar.O Comando surgiu com o lema "Paz, Justiça e Liberdade" e criou o mito das organizações do tráfico do Rio.
De acordo com o ex-secretário de Segurança do Rio, Luiz Eduardo Soares[ii] “esses nomes funcionam mais como linhas de demarcação que aproximam e opõem os atores coletivos, do mundo criminal do que como representação de organizações sólidas bem estabelecidas. Quanto valem, de fato, depende do contexto, da circunstância específica, do tema em foco".
Ou seja, não houve nenhuma politização ou conscientização de realidade nenhuma, apenas o fortalecimento desses grupos que já existiam.Se tivesse surgido a menor organização em torno de uma plataforma política dentro desses grupos, eles já teriam sido exterminados e provavelmente as favelas teriam se tornado terra arrasada. O estado policial (não o de direito) costuma se autoproteger muito bem.E não se sente ameaçado com esses tiroteios. Esse estado só sente ameaçado se houver política no meio, como não há, pra que intervir?
É preciso desmistificar e descriminalizar a venda e o uso das drogas.
A nova lei dos tóxicos sancionada em 2006 criando o Sistema Nacional de Políticas sobre Drogas, tem como objetivo “prescrever medidas para prevenção do uso indevido, atenção e reinserção social de usuários e dependentes de drogas; estabelecer normas para a repressão à produção não autorizada e ao tráfico ilícito de drogas.”
A principal característica é a descriminalização da posse de droga para consumo pessoal. Outra mudança é o aumento da pena para o tráfico de drogas de 3 a 15 anos para 5 a 15 anos, além de 500 a 1.500 dias-multa. O uso não é proibido, a venda sim, não é uma maravilha de legislação?O texto diz que são estabelecidas normas “para a repressão à produção não autorizada e ao tráfico ilícito de drogas”, mas existe produção e tráfico autorizado e lícito?


Escrito por Marco Celso Huffell Viola às 22h15
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                     Vamos II

 A estrutura da droga é a mesma de qualquer produto, transformação, distribuição e venda.
É um processo ligado agroindústria e também a indústria química, desde de sua origem até a venda ao varejo.
Faz mal a saúde, faz, como o cigarro, como álcool. Compra e usa quem quer.Apesar de ser reconhecido o uso da nicotina nos cigarros nunca ouvi notícia do fechamento de uma única fábrica de cigarros.
O grande exemplo da década de 30 nos Estados Unidos com o álcool também não serviu para os legisladores.
Há alguns outros interesses atrás destas questões, além do lucro brutal. Certa vez escutei de um ministro da República que um dos cartéis da Colômbia aplicava dinheiro no mercado brasileiro com a devida anuência do governo (que ele representava) que buscava avidamente esses dólares.Como essa revelação já foi há algum tempo e mudaram alguns governos acredito que os que se seguiram estão mais criteriosos com relação aos capitais que atraem para o mercado brasileiro.
Será que não?
De onde saem esses grandes capitais de risco que circulam o mundo atrás de mais lucros?
Podemos somar a esses interesses, em não resolver a questão da droga, o comércio de armas, o comércio de segurança pública e privada, o suborno e alguns preconceitos religiosos. Já ouvi argumentos que a droga pode destruir a família. O mesmo argumento era usado contra o divórcio e até hoje contra o aborto.
O livro de Caco Barcelos não traz nenhuma novidade além do já sabido, da interelação de uma classe alta e média permissiva, o sofrimento dos mais pobres e desamparados.
Temos, hoje, cerca de 27% da população economicamente ativa, cerca de 24 milhões de pessoas, jovens, ou desempregados ou subempregados que ajudam a alimentar essa máquina de moer de gente.
Não há vontade política, nem econômica, nem nada, para resolver essa questão.
O exército vai para as ruas pela segunda ou terceira vez, vai resolver? Não. Vai gastar alguns milhões como já gastou nas outras vezes que saiu dos quartéis, conforme relato no livro.
Não há verdadeiro interesse em resolver isso.
Já se disparou mais tiros nessa guerra que em algumas batalhas históricas do Brasil.Segundo dados do livro de Caco um dos hospitais do Rio de Janeiro é uma dos maiores especialistas do mundo em atender gente ferida em tiros de fuzil.
Criar leis mais duras não adianta nada!
Passeatas, manifestações, menos ainda.
Se algum desses traficantes tivessem conseguido fazer acordos internacionais como o biografado de Caco Barcellos queria, ou mesmo o tal de Fernandinho a Beira Mar com as FARC, como eles chegaram a tentar, a situação ia ficar complicada para esses legisladores em causa própria e para um estado- policial, ótimo para cobrar impostos de quem trabalha e produz e não devolver nada a sociedade, quando não ajuda a engordar essas quadrilhas apoiando a impunidade com o amparo da lei e tirando proveito do status e foro privilegiado.
A única saída para toda essa questão é a legalização da compra venda e uso da droga e deixar de hipocrisia.
O Estado e o cidadão só têm a ganhar com isso, o Estado ganha mais uma fonte de renda para tapar seus eternos buracos de caixa e o cidadão, sossego para caminhar nas ruas das grandes cidades brasileiras.
O resto é bobagem eletiva ou assunto para os pregadores atrás de ovelhas para pastorear. Conversa fiada.




[i] ABUSADO-Caco Barcellos-Ed. Record-564 pg - R$ R$ 55,00
[ii] Folha On Line-15-04-2004 Segurança



Escrito por Marco Celso Huffell Viola às 22h14
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A universidade e o preconceito- uma coleção étnica

Marco Celso Huffell Viola - Porto Alegre

 Tenho por parte de mãe, uma bisavó negra ainda escrava quando casou com o inglês, meu bisavô (em cartório em São Gabriel) e, por parte de pai, um italiano que chegou no Rio Grande do Sul, antes da grande imigração de 1870 e casou com uma paraguaia. Não tenho direito a cidadania italiana porque o sobrenome se perde numa família extremamente prolífica. Não tenho e nem quero a cidadania paraguaia, porque, no máximo o que vou conseguir é alguma isenção sobre produtos importados, se algum dia virar camelô, a inglesa, então, seria luxo demais. Muito menos, posso reivindicar a cidadania nagô, que possuo legitimamente, mesmo tendo olho azul, porque sei lá que região da África minha bisavó provém. E aí, me sobra a condição de ser brasileiro e cidadão do mundo. O que é uma condição difícil, mas não lamentável. Lamento, isso sim, quando deparo com o fato de que os mais cultos,ou aparentemente mais cultos, ou seja, aqueles que tem acesso à cultura em nosso país não sabem exatamente o que são e a que vieram.Ou não fazem questão de saber, ou então fazem questão de manter esse desconhecimento e divisões étnicas,separatistas, sociais ou culturais para dele usufruir alguma benesse ou ainda, para aumentar esses abismos e criar mais guetos entre homens, nações e raças.
Lamento quando deparo como o fato de Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), através de sua editora ter uma coleção de livros editada por alguns, professores? que não sei se mal esclarecidos ou mal formados ou os dois, que dividiu autores (vários) do Rio Grande do Sul por algumas etnias formadoras do Estado. Nos livros editados pela universidade há textos de poetas,escritores,jornalistas, com os seguintes títulos: Nós, os afro-gaúchos; Nós, os gaúchos;Nós, os ítalo-gaúchos; Nós, os teuto-gaúchos. Estão a venda no site da Editora da Universidade www.ufrgs.br/editora/ Na lista de preços é mais fácil encontrá-los.
Os organizadores destas antologias esqueceram que o Brasil, hoje, não é um Estado multinacional e sua formação racial em alguns casos é quase imprecisa. Falei em alguns casos, porque existem no país, ainda em uso entre as diversas nações indígenas quase 120 idiomas, mas mesmos essas nações apesar de possuírem seus estamentos, estão submetidos, acima de suas regras, a regras jurídicas legais e lingüísticas das quais fazem parte a configuração da nação que vivemos.
Esqueceram esses, professores? as perseguições que sofreram os alemães no Rio Grande do Sul para integrarem-se? Será que esqueceram, também, no que conduziu essas separações étnicas antes e durante a segunda guerra mundial? A guerra em Ruanda entre as etnias tutsi e hutu que já matou mais de 1 milhão de pessoas -divisão étnica,essa, alimentada pelos colonizadores belgas; dos curdos, hoje, um povo sem pátria).
E parece que a coleção parou nisso, por quê? Se continuasse, faltaram, imagino, títulos como: Nós, gaúchos-gauleses (que reuniriam os belgas e franceses), Nós, os gaúchos ingleses, Nós, os gaúchos espanhóis (que reuniriam os catalões e os bascos).Mas qual foi mesmo o critério de escolha para a seleção de material que consta nessas antolgias?
Se o critério para escolha dos colaboradores na coleção foi pela ordem de descendência patrilinear eu poderia colaborar em apenas um dos livros.Se foi regional e patrilinear em dois livros e, se nenhum dos anteriores, poderia apresentar textos para três dos livros, pois sou pela minha ascendência: afro-gaúcho, gaúcho e ítalo-gaúcho e se mexer um pouco mais há um traço de basco.Acho interessante que nessa coleção tenham sido esquecidos, também os judeus-gaúchos e os árabes (nessa entrariam descendentes de palestinos/ turcos e todas outra etnias da qual faz parte o mundo árabe e que está presente no Rio Grande do Sul desde a sua formação, basta buscar em sociologia histórica Manoelito de Ornellas- Gaúchos e Beduínos, e na ficção Simões Lopes Neto-Lendas do Sul-A Salamanca do Jarau, cujo título já evidencia a ligação com a Espanha moura. Onde estão estes últimos?Incluídos nos gaúchos?Por quê?Suspeito que eles existam.Porque não tiveram também o seu livro, em separado, nesta linda coleção étnica?Será que faltou dinheiro para editar ou daria algum problema? Sugiro que na continuidade da coleção façam mais dois livros, além dos já citados, com os guaranis, Nós, os gaúchos tupi-guaranis, ou vamos esquecer a sua cultura e história para formação desse Estado, também?
E outro, com o título:Nós,osgaúchosautosegregadosesegregadoresdaculturabrasileira.
Agora vem a dúvida: Vamos pegar três exemplos, se vivos fossem no Rio Grande do Sul: Machado de Assis. Em qual dessas coletâneas o colocariam?Afro-brasileiro? E aquele negro Cruz e Souza; e aquele mulato genial Afonso de Lima Barreto, que comemora esse ano 125 anos de seu nascimento sem nenhuma grande festa (patrocinada por algum banco estatal-com direito a discursos de vários especialistas autonomeados em sua obra) e que disse: “nasci pobre, nasci mulato...Executei minha missão fui poeta!”.Não daria também mais um título:Nós,os gaúchos mulatos ?
Ficamos então, no pior dos mundos.Aqueles que têm a obrigação de sinalizar, educar, mostrar, orientar, depreende-se por uma coleção dessas não terem a mínima noção do que é cultura, do que é importante em cultura, mesmo se tiveram publicado um milhão de livros antes desses.Na minha opinião, justificar por qualquer ângulo ou critério uma separação étnica para cultura é criar mais divisões e preconceitos. Tudo começa com a cultura e a educação, inclusive os preconceitos. Acredito que objetivo da editora de uma universidade seria trabalhar contra isso.Não vejo coleções com critérios étnicos,separatistas, semelhantes editadas por universidades brasileiras ou em outros países.Se houverem,por favor me avisem! Seleção de textos baseado na cor da pele de seus autores,sexo, origem familiar,localização geográfica, faixa etária,religião e profissão são restritivos e inservíveis para qualquer noção ou visão de cultura que se pretenda abrangente e importante, para não ser mais rigoroso e aprofundar as questões de racismo ou separatismo. Enquanto isso, a Universidade perde cada vez mais sua importância social e cultural com publicações como estas, realizada com dinheiro público que se prestam mais a dividir aquilo que deveria estar unido em torno de uma cultura verdadeiramente brasileira e universal.


Escrito por Marco Celso Huffell Viola às 19h20
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Tambor da selva, livro como sabonete, literatura hambúrguer

 



Em seu último post no Nova Klaxon, o Emanuel, tocou num ponto importante da nossa cultura de consumo, a publicidade. Como já fui redator de agência e trabalhei com toda a área da mídia, rádio, televisão, jornal, posso acrescentar um pouco mais de lenha nessa conversa.Dizem que a prostituição é uma das mais antigas profissões do mundo, mas pra mim a publicidade rivaliza com ela em antiguidade e algumas vezes as duas se misturam.Quem já participou de uma reunião com um cliente insuportável, sabe bem o que falo ou quem já teve que escrever um anúncio para um produto que só existe porque a publicidade garante que ele existe e, são muitos, sabe também do que falo.A publicidade movimentou no primeiro trimestre de 2005 no Brasil segundo dados do Ibope Monitor 27,9 bilhões de reais. No mês de setembro com publicidade on line, nos Estados Unidos,foram gastos 3,6 bilhões de dólares. Lá, tanto quanto aqui, os 30 maiores anunciantes são de produtos completamente dispensáveis para a vida de qualquer ser humano normal e até por isso anunciam pesado, todo mundo pode viver sem uma tv de plasma ou mesmo um iogurtinho ou uma sandalhinha que traz um microfone acoplado.Já andaram falando também, por aqui, em proibir a participação de crianças em comerciais, mas ninguém se mexeu. Em alguns países na Europa é proibido.E o Estatuto da Criança e do Adolescente? Natimorto.
A publicidade é uma atividade sancionada pela neurose obsessiva(repetitiva) de uma civilização que perdeu a noção do que é importante e necessário para viver. Está em crise nos Estados Unidos, sabem porquê? Os avanços tecnológicos, as mídias interativas, a tv paga,o controle remoto vem roubando espaço da publicidade convencional.Como saída eles estão entrando no cinema e nos seriados da tv.
A publicidade brasileira, de uma maneira geral, mantém os preconceitos em dia e em pé.Alguém já viu uma máquina de lavar anunciada para um homem? Não! O anúncio é sempre dirigido à mulher, alguém já viu um anúncio de sabão em pó dirigido para homem?Não!Um fogão sendo vendido para um homem? Não!Uma geladeira?Não! Mulheres e crianças, primeiro, aliás, ao contrário, crianças e mulheres.Digo crianças primeiro, também, porque a maior parte dos anúncios é de uma obviedade tão grande que até uma ameba com meio neurônio ativo compreenderia. Com relação às mulheres os publicitários brasileiros pensam que mulher é ótima para pilotar um fogão ou ralar a barriga no tanque. Há um anúncio onde um cantor, um chorão muito mala, aparece cantando para uma dona de casa no tanque e entrega a ela um lindo pacote de sabão em pó. Mais ridículo e idiota o anúncio não pode ser.A publicidade brasileira imbeciliza.Mas, talvez eu esteja generalizado e desprezando tão importante setor da economia e desfazendo dos talentos de nossos publicitários, alguns até com prêmios internacionais,mas se até os chipanzés se auto-protegem, porque não os publicitários?Prêmio para mim não é sinônimo de qualidade,muito menos de responsabilidade, ética ou importância.A desaparecimento dos anúncios de cigarros só ocorreu em função da proibição legal, não o contrário.
Agora, a questão do uso das verbas públicas para publicidade na corrupção. Não entendo porque tanto barulho em torno disso, ora, as verbas não são públicas? São públicas?Portanto, pertencem a todos e a ninguém e, se pertencem a todos e a ninguém, nada mais natural que aqueles que estão próximos a elas, pegarem para si. É preciso terminar com a expressão mentirosa dinheiro público, ou como os americanos gostam de dizer: dinheiro dos contribuintes.Quando o dinheiro vai parar nos cofres do governo, ele já trocou de mãos, deixou de ser público, ou o governo não tem a caução pra fazer com ele o que quiser?Não é mais dinheiro público.É dinheiro sem identidade.Não está impresso nele que uma ínfima parte pertenceu, um dia, ao seu Zé que entregou aos cofres que, não são públicos, através do imposto embutido em um quilo de feijão comprado na mercearia próxima à sua casa. Deixou de ser público e, é de quem tem a chave do cofre.É preciso responsabilizar aqueles que são responsáveis pela fiscalização da aplicação desses recursos, ou a Justiça Federal, o outro poder, não existe para isso? Não ganham bem para isso?O resto é retórica eletiva.Não sou tão otimista a ponto de acreditar que a corrupção algum dia vá acabar, ela está presente em todos os cantos do globo, quanto mais pobre, mais miserável o país, fisicamente e mentalmente, mais ela frutifica.A exceção, é lógico, da Suíça, mas lá parece que todos estão mortos, agora, num certo país de gente muito viva e cheio de cobras criadas...Como também não acredito como Emanuel que desmistificando a publicidade vá melhorar a literatura.Para vender, a publicidade pode ser autofágica e se necessário, ela mesmo se desmistifica.É mais ou menos aquilo como o jornalista da década de 30, H. L. Mencken* dizia de Roosevelt: “Se Roosevelt achar que se converter ao canibalismo pode lhe render votos, mandará engordar um missionário no quintal da Casa Branca”.É o mesmo com a publicidade, vale tudo para vender e só vale se vender, ou a conta, o cliente, o dinheiro, migra rapidamente para outra agência.É o poder do capitalismo exacerbado até o limite do desespero.A força da publicidade não advém dela própria, mas do dinheiro que a mantém, do dono da fábrica de panelas, dos provocadores de arroto internacionais,dos donos da fábrica de dentifrício.Já a literatura como substância, ente de criação, tem um abismo que separa da publicidade, intransponível.São duas coisas completamente distintas.Certa vez entrevistei Alfredo Machado(faleceu em 1991), criador da Editora Record, ele me disse em alto em bom som que o livro para ele era um produto como sabonete. Deveria ser vendido como se vende sabonete.Aparentemente deu certo a estratégia, a Record é dona hoje de duas das ex-maiores importantes editoras do país, Civilização Brasileira e José Olympio.E anuncia, os idiotas dos romances da Equipe denominada Norma Roberts editada pela Bertrand Brasil, outra sucursal da Record, estão presentes nos luminosos das grandes redes de livrarias do país. Mas o que Alfredo Machado não me disse é, que ele tinha em sua editora, bem menor, na época, que agora, (na ocasião a sua esposa reclamava que ele levava muito livro para o apartamento e ela temia que aquilo desabasse no apartamento do vizinho), um ótimo catálogo, misturado com muita bobagem vendável.
A comprovação que a publicidade não faz a mínima diferença para arte é o teatro.O teatro raramente anuncia e, no entanto, consegue sobreviver.
Aprendi com atores e produtores de teatro, em São Paulo, uma expressão chamada tambor da selva, que funciona assim: se uma peça de teatro é boa, o tambor da selva funciona, uma pessoa passa a outra e assim, por diante, e a peça termina virando sucesso.O contrário também é verdadeiro.Em cultura, a publicidade tem pouca importância.Os livros de Nora Roberts podem ter aut-doors espalhados pelo mundo todo, vai vender? Vai!Os compradores daquela coisa é gente que compra livro como compra sabonete, livros digestivos, ou de entretenimento, como me disse recentemente um autor colonizado, abduzido e que teve o seu cérebro comido por uma cultura alienígena “literatura é entretenimento”de auto-ajuda,dos Paulo Coelhos, das historinhas horrorosas, nojentas e pegajosas de Stephen King.É uma literatura feita como hambúrguer, rápida e rasteira, que você mal terminou de engolir e já esqueceu o sabor. Os compradores disso é um público descerebrado,que sempre existiu e vai continuar existindo, se não nasceu imbecilizado, tornou-se.
Com arte sou muito mais o tambor da selva, já o vi em ação.
*Henry Louis Mencken- Livro dos Insultos- seleção, tradução Ruy Castro- Ed Companhia das Letras


Escrito por Marco Celso Huffell Viola às 09h35
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A nova literatura e a nova poesia ainda não nasceram e nem vão nascer

 Marco Celso Huffell Viola

Li em algum lugar, recentemente, que a poesia de Reiner Maria Rilke envelheceu.
Não acreditei no que estava lendo e como Cartas a Um Jovem Poeta foi para mim um dos livros mais marcantes da minha formação voltei a reler o poeta que nasceu em Praga e se converteu num dos mais importantes poetas alemães do século XX e, morreu, segundo dizem, devido ao ferimento causado por um espinho de rosa.
Logo as rosas que ele tanto amou ou até por isso mesmo.
Você não lê um grande poeta como se fosse um poeta modernista ou da geração 45 ou da geração isso ou aquilo.
Lê o poeta por sua poesia.. Quais as influências que determinado autor sofreu, quais os movimentos literários que ele esteve inserido são assuntos técnicos que nada acrescentam a poesia em si. Isso interessa apenas a aqueles que trabalham com a língua e a literatura.Escritores, professores.
Isso também faz parte do sistema de classificação artística tão a gosto dos críticos cuja existência se justifica apenas em função dessas definições.
Quando alguém lê poesia e busca nela as referências sobre o autor, ou mesmo só que está escrito sem buscar a essência do que está dito, faz uma leitura técnica.
A poesia quando é verdadeira busca a transcendência na palavra escrita e apenas para esse fim ela existe.
Associam, por exemplo, a obra de Rilke a externalidades como aos castelos, aos anjos e as obras em pedra, como seu célebre Torso Arcaico de Apolo, onde para mim, apenas uma frase justifica o poema inteiro: “Força é mudares de vida” (1).O poema todo conduz a essa frase.O resto do tema é quase um pretexto para chegar a frase.Como são os anjos, os castelos...pretextos para construir uma grande poesia.
Também, recentemente, fui instado a responder o que eu achava da nova poesia.
Respondi o que disse a acima: Que a poesia não se define por nova ou velha, mas por poesia.Se você analisar a poesia sob o ponto de vista lingüístico, o que muda é a língua, a linguagem no sentido histórico.A lingüística é uma ciência interdisciplinar que realiza o estudo da língua e suas alterações diacrônicas.Essa ciência não faz nenhuma distinção sobre o conteúdo, o sentido último do texto, o que diz o autor, e quando faz acaba por confundir tudo, numa generalização imprecisa.(2) E o que importa realmente é o que diz o autor, não sua vida, seu momento histórico, suas amantes ou o nome de seu cachorro.
Esses professores ligados à análise literária, também sempre tentam enfiar determinado autor em um movimento. Porque é mais fácil para eles tentarem compreender o que quase sempre não conseguem entender.
E quando alguns autores criam movimentos que antes deles não existiam, e as influências sobre o artista são aquelas que pairam sobre sua angústia de viver e nada mais.Como é que fica?
O artista é autocrata em sua obra, se não for, é como era definida a poesia por Aristóteles, (incluindo aqui a dança o teatro) mimesis ou imitação e neste caso o artista imita as sombras da caverna, no exemplo de Platão.
E quando o autor é suficiente criador e inicia um movimento literário? Ah, bom, a fórmula seguinte desses classificadores é tentar casar o surgimento do movimento como necessidade de classe. O romantismo, segundo esses autores surgiu como necessidade da burguesia. E não da criação de Vitor Hugo.
Antes de Hugo o romantismo não existia. Ou a literatura policial que começou com o atormentado poeta Edgar Allan Poe, o primeiro autor a ter a coragem de ver o lado escuro da alma humana.Essa ficou sem explicação.Porque o movimento equivalente que existia na Europa, no momento, não se adequava a Poe e não havia nada equivalente nos Estados Unidos.
Essa tentativa de estabelecer a que movimento pertence o autor, o que é novo, o que é velho em arte, o que é revolucionário o que é vanguarda, não acontece apenas com a literatura.
Na pintura também, há o caso bem documentado do impressionismo cuja denominação foi dada a partir de uma declaração pejorativa de um crítico de arte francês ao ver a tela de Monet Impression du Soleil Levant numa exposição em 1874.Ou seja, uma declaração ofensiva acaba se tornado um designativo de um processo artístico. O problema dessas designações é que elas quase sempre se auto-esgotam e os classificadores (muitas vezes, comerciantes de arte, também) se esforçam em achar fases subseqüentes que geralmente são designações arbitrárias.
O que o artista tem com isso? Nada. Apelidar, ofender, dar o nome a um tipo de arte, estabelecer se é nova ou velha é atribuição, principalmente da critica e daqueles que trabalham sobre a arte não com arte.
A função do artista e criar, ser antena. Salvador Dali dizia que seus bigodes eram suas antenas.
E quando não existe um formulário literário (expressão cunhada por Octavio Paz)ocidental como na literatura árabe ou japonesa ou chinesa?
Já vi classificaram a poesia de Basho como naturalista, porque ele usa elementos da natureza em seus poemas. Não é uma classificação de uma simplicidade alarmante?
O naturalismo como movimento literário do século XIX está par e passo como o realismo criado por Emilio Zola. Agora, como um poeta como Basho que viveu no século XVI pode ser naturalista?Ele usa a natureza como elemento de ligação estética budista e criou seus poemas com uma função completamente distinta da poesia ocidental.
Impossível ligar essas pontas soltas.
É possível pensar nos poemas seguintes como “novos” ou “velhos”?

A cigarra...ouvi
Nada revela em seu canto
Que ela vai morrer


Quatro horas soarem
Levantei-me nove vezes
Para ver a lua.

Só existe uma maneira de compreender e medir essa poesia e, é com um instrumento que não estamos acostumados a usar para muitas coisas: o coração.
De outra maneira vamos buscar sempre no racionalismo besta explicações para o que não tem e nem precisa explicação.De onde concluo que não existe a poesia nova ou velha,a poesia pode ter sido criada ontem ou no século XVI, existe a poesia como um formulário (esse sim) de percepção da vida e do universo, sem idade e cada vez que ela for datada, perde a sua razão de ser.

1)Tradução dos poemas de Rilke e Basho de Manuel Bandeira- Estrela da Vida Inteira Ed.Record Altaya
2) De Poesia Política do autor.



Escrito por Marco Celso Huffell Viola às 09h22
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Tu vais? E você, vai? E a grande dama

Ednei Silvestre fez uma matéria para o Bom Dia Brasil (28-12-2006) sobre Bárbara Heliodora www.barbaraheliodora.com estar traduzindo toda a obra de Shakespeare para o português.Não vi ainda uma reportagem importante sobre essa grande dama do teatro brasileiro, também não foi dessa vez.Com experiência de quem já interpretou, dirigiu, lecionou e escreve sobre teatro, ela distingue-se como uma verdadeira dama do teatro brasileiro, não imposta pela mídia que de acordo com suas conveniências determina quem é quem, baseada em critérios momentâneos. E agora ela traduz para o Brasil, Shakespeare.
Na minha opinião, no século XX surgiram e alteraram o visão do teatro três grandes teóricos sobre o assunto, o russo Constantin Stanislavski (1863-1938), o polonês Jerezy Grotoviski e Bertolt Brecht. Dos três, a mais larga, profunda e duradoura influência com certeza é de Stanislaviski, seu Preparação do Ator (ed. Civilização Brasileira), transformou a atuação dos atores, não apenas na Rússia, sua influência se espalhou na forma de interpretação a todos os grandes atores, inclusive os que atuam no cinema norte- americano. Ele trouxe a realidade para o teatro, o ator vive o personagem, veste o personagem, ao interpretá-lo, com os gestos e atitudes da vida real, sem artificialismos.O padrão antes de Stanislaviski, era o ator artificial, empolado, com raras figuras que atuavam de forma intuitiva. Jerzy Grotowsy introduziu pouca alteração nesse pensamento sobre a interpretação, internalizando mais os gestos, buscando até mais os aspectos psicológicos da interpretação, para ele o gesto nasce antes das palavras.Quem trouxe uma visão diferente nesse contexto foi Brechet, ele criou o distanciamento, a consciência critica do ator sobre o personagem que interpreta (existe uma palavra em alemão para esse conceito que ocupa quase uma página), esse atitude do ator,segundo Brechet também provocaria no público uma consciência critica do que via no palco.Com essa consciência de Brecht, o ator deixaria de ser meio, médium e se tornaria parte distinta no processo criativo do autor.Mas isso só funciona e relativamente na obra de Brechet, até porque exigiria um volume maior de autores com a mesma visão dele sobre o teatro e a sua importância transformadora na sociedade. O que não acontece com o método de Stanislaviski, o conceito dele foi e, é uma revolução no teatro, na maneira de interpretar.O ator é médium(ele nunca disse isso, quem diz sou eu) e, quanto mais, melhor.
Essa visão do papel do ator sobre o palco criou uma maneira de ver teatro e suas derivações, cinema, televisão, padrão.Temos dificuldade em crer na veracidade do personagem, em filme, teatro,performances, quando o ator está distanciado do personagem que interpreta.O melhor ator é aquele que deixa de existir e funde-se com o personagem.
Na reportagem que realizou, como apoio a matéria, Ednei destacou no cinema atores que interpretaram Shakespeare,sem distinguir o teatro (onde ator não pode errar em cima do palco) do cinema, duas linguagens diferentes,mas vamos lá, destacando a do irlandês Kenneth Branagh em Much Ado About Nothing (Muito por Nada- que na tradução virou Muito barulho por nada), em detrimento de várias outras,incluindo na lista Marlon Brando e Mel Gibson. Esse filme é um pouco fora de todos os filmes,teatro filmado, sobre a obra de Shakespeare, a começar pelos atores, acho que o irlandês que o produziu e o escreveu não pagou um centavo a eles, todos estavam ali por puro prazer de interpretar, e há interpretações impagáveis, Michael Keaton faz um Dogberry simplesmente notável.É isso que a obra de Shakespeare provoca: a possibilidade sempre e única de uma interpretação magnífica do ator, além da profunda humanidade em seus personagens. É a síntese do teatro.É o teatro perfeito.Kenneth Branagh tem outra adaptação mais luxuosa sobre Hamlet, que tira o fôlego de alguns atores ao interpretarem aqueles enormes bifes do bardo de Stratford-Upon -Avon? Há uma lenda que diz que Shakespeare teria sido ator e há outra que ele teria sido Francis Bacon, filósofo, ensaísta,criador do empirismo, que deu a ciência atual a sua base. Estou mais inclinado a aceitar a segunda hipótese da lenda do que a primeira, pela profundidade dos temas abordados, a familiaridade e a intimidade com as intrigas palacianas, o conhecimento de culturas distintas, Romeu e Julieta é uma tema italiano anterior ao período de existência de ambos.Coisa que um ator, dificilmente alfabetizado, da época,(1500 e pouca coisa) poderia dominar com tanta maestria...Gênios existem e seja como for, qualquer um dos dois, a obra é coisa de gênio, não de um teatrólogo normal.E que textos!
Grandes atores ou grandes atrizes raramente pensam sobre o teatro, são, no máximo, grandes intérpretes.Por isso, existem tão poucos atores-autores.No Brasil, é possível contar nos dedos, Maria Clara Machado, Guarnieri, Juca de Oliveira, Plínio Marcos. Com esse último conversei várias vezes e chegamos a jogar futebol juntos,num time de pata duras, que jogava na periferia de São Paulo. Certa vez encontrei um dos originais de Quando as Máquinas Param num depósito que o Teatro de Arena e fiquei surpreso com a exigüidade do texto, possuía, no máximo quinze folhas de diálogo. Plínio Marcos fazia um teatro forte, revolucionário, na linguagem e extremante realista- e continua sendo representado.Lembro dele na estréia do Balbina de Iansã,(1970)na portaria do teatro atento aos espectadores pagantes e não pagantes como eu.
Mas, deixando as lendas de lado para falar um pouco mais sobre a influência, do trabalho critico de Bárbara Heliodora. Um diretor-autor de teatro me contou recentemente: -estávamos as moscas, o público só apareceu depois da critica positiva de Bárbara Heliodora”. No Brasil, no início desse novo século, pouca gente tem a capacidade e autoridade de dizer: -vá ver que é bom, vá que é importante, sem errar.Principalmente em uma área que sensibilidade vive na flor da pele e, é vivida com muito mais intensidade que, talvez, em qualquer outra área artística.E onde cada interpretação é única.
Voltando a tradução, para fugir das antigas fórmulas que usam uma linguagem empolada, ela optou pela coloquial e usa o tu e você, simultaneamente, na mesma frase: - é assim que falamos -diz ela, justificando. Língua é uso.A língua está a serviço dos artistas, dos criadores, assim como a cor, a tela ou objeto está para o artista plástico e não ao contrário.A opção da tradutora é correta.Até que o português que falamos atualmente fique arcaico, lá pelo século XXII.Meus aplausos para Bárbara Heliodora.



Escrito por Marco Celso Huffell Viola às 21h51
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Jô Soares pergunta:conhece quadrinha de banheiro?
Fiquei pasmo com a entrevista realizada por Jô Soares com Affonso Romano Santana no último dia 29.A ânsia do apresentador em "alegrar" o público é tanta que ele entre outras besteiras pergunta:conhece alguma quadrinha de banheiro? Ora, o sujeito vai lá promover seus livros de poesia, que possui espaço raro de divulgação no país, e pega um apresentador que nem entrevistador é, o sujeito é um blefe metido a engraçado e a escritor que é incapaz de tratar qualquer tema, muito menos literatura, com qualquer traço de seriedade e importância. Lamentável.

Escrito por Marco Celso Huffell Viola às 13h15
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O blog Nova Klaxon é o encontro de cinco escritores cada um em um canto do mundo que escrevem sobre literatura e arte. São eles:Emanuel Medeiros Vieira de Brasilia-Nei Duclos de Florianopolis e Jose´Fonseca de Pequim e Marco Celso Huffell Viola- Porto Alegre. O endereço; http://novaklaxon.blogspot.com

Escrito por Marco Celso Huffell Viola às 23h50
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