Pela primeira vez que se tem notícia nessa país um prêmio literário importante e dado e retirado, as razões podem ser entendidas pela notícia abaixo e o histórico do fato.
Quatro dos jornalistas jurados eram da mesma empresa de comunicação
Depois de um início de polêmica, o prêmio Açorianos de Destaque em Projeto de Incentivo, Promoção e Divulgação da Literatura, concedido ao projeto Maratona Literária, da Coordenação do Livro e Literatura da Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre foi revogado na tarde de hoje pelo secretário municipal de Cultura, Sergius Gonzaga. “Decidimos tirar dos registros dos vencedores este projeto porque achamos que não ficaria bem para a transparência do evento”, revela Gonzaga.
O secretário esclarece que a escolha foi espontânea do corpo de 27 jurados e que irá enviar uma carta a eles, explicando os motivos do declínio. “Não havia impedimento no regulamento, mas decidimos não aceitá-lo”, ressalta. Em 1995, a revista Porto & Vírgula havia ganho o prêmio Destaque em Mídia Impressa. Sergius Gonzaga disse que por falta de cuidado na escolha dos jurados, quatro dos jornalistas convidados eram da mesma empresa de comunicação, mas que isso não refletiu diretamente em nenhuma das escolhas. “A escolha dos jurados é por notório saber, não pela empresa que representam”, explicou.
Ele anunciou, ainda, que o prêmio Açorianos de Literatura terá prêmio em dinheiro nas próximas edições. A categoria Conto receberá um valor a ser confirmado em na edição de 2010, a Narrativa Longa, em 2011 e a Poesia, em 2012.
O Secretário Sergius Gonzaga informou na tarde de hoje (17 dez) a Band News e a jornalista Lucia Mattos que iria cancelar a premiação do Açorianos 2009 a Maratona Literária, em função desta ser uma atividade realizada pela própria secretaria e portanto não poderia ser premiada. Com essa atitude o secretário demonstra que está atento as ponderações que fizemos no texto sobre essa premiação e contou com apoio de vários intelectuais.
Textos abaixo, na ordem de seu envio:
----- Original Message ----- From: Marco Celso H.Viola Sent: Wednesday, December 16, 2009 3:22 PM Subject: Maratona Literária-quando o Estado premia a si mesmo
Prêmio Açorianos- de 2009 *
Percebe-se que não existe nenhuma iniciativa importante na área do livro por parte do Estado, nesse caso o muncípio, quando ele premia a si mesmo por ter feito ou fazer aquilo que é sua obrigação. O Prêmio Açorianos desse ano revela isso, a premiação da Maratona Literária como "promoção e Divulgação da Literatura em Poto Alegre"-, a partir de indicação espontânea. Segundo consta existe um corpo de jurados para julgar as diversas categorias do Prêmio Açorianos e a essa, esse ano, soma-se uma curiosa "indicação expontânea". Depois de não ter recebido o Fato Literário de 2009, apesar do esforço realizado junto a a urnas colocadas na Feira do Livro e fora dela -com funcionárias da Divisão do Livro destacadas para buscar votos junto aos frequentadores da Feira (se não me engano o dinheiro que paga esse pessoal é dinheiro de impostos) - percebe-se que existe por parte da direção da atual Divisão do Livro bem como adminstração cultural do muncípio a busca de promoção pessoal e de suas atividades e a inexistência total de um plano para a cultura de Porto Alegre onde repetem-se iniciatavas antigas como o Baile da Cidade- cujos custos de um único dia ultrapassam o valor do orçamento anual do Atelier Livre da Prefeitura. Até quando os intelectuais desta cidade vão permanecer integrando-se em atividades como essas sancionando-as sem nenhuma discussão? Está na hora de começar a dizer basta para o cumpadrio, para aqueles que fazem do dinheiro público escada para carreiras nem sempre bem explicadas ou com currículo para exercê-las.
As políticas em âmbito da capital e do governo do Estado na área da Cultura não respiram o que é feito no teatro, música, poesia e por aí vai. Sabe, índio véio, é de desanimar. Nós que transitamos pela construção diária e de formiguinha no mundo das artes, não estamos em consonância com os "grandes projetos" reforçados por setores da mídia que associam o fazer cultural com sucesso. Sucesso esse, que está a serviço de reforçar um status quo, sem um mínimo de questionamento. Há, praticamente, uma censura velada ao diferente. O que vale é o grande, com ampla repercussão, e o tradicional, ambos com a função de reforçar valores cristalizados. Existe espaço para todos, mas quando Cultura é um valor tratado pelo enfoque da diversão apenas, aí é preciso refletir.
----- Original Message ----- From: "Renato Motta" <renato.mattos.motta@gmail.com> Subject: Re: Maratona Literária-quando o Estado premia a si mesmo
Amigos,
Faço minhas as palavras do Celso! Não apenas é vergonhosa e imoral a busca de autopromoção através do aparato público. Acho importante ressaltar que "aquilo que é obrigação" de uma secretaria de Cultura ou uma Divisão desta secretaria fazer não pode ser passível de premiação por esse próprio órgão, ainda mais quando quando a obrigação não é cumprida e o serviço resulta mal feito.
Do que falo?
Falo de um evento que conheci, tendo participado das primeiras 2 ou 3 edições, que supostamente deveria "promover e divulgar a literatura em Porto Alegre", que aconteceu no Centro Municipal de Cultura, local de baixa circulação de populares, reunindo um grupo seleto de literatos, artistas plásticos, músicos e membros da "inteligentzia" portoalegrense para lerem "Cem Anos de Solidão", "A Metamorfose", "Os Ratos" ou "On the Road", livros que - assim como eu - a maioria daquelas pessoas já leu há mais de 30 anos... quando percebi que o referido evento não passava de um convescote de notáveis para ver e ser visto, que não produzia efetivamente qualquer contribuição cultural, deixei de frequentar. Ainda mais quando tive o desprazer de ver as funcionárias da Divisão do livro em plena tarde de um dia de semana empenhadas em arregimentar votos populares para fazer da Maratona o "Fato Literário" em detrimento de outros projetos que me pareceram muito mais meritórios e conseqüentes...
Não conseguiram o Prêmio Fato Literário. Fazer o que? Usar o Prêmio Açorianos? Este não há como perder, é só mexer pauzinhos, criar uma "indicação espontânea". Não interessa se isto pode denegrir a imagem de um prêmio que até hoje era tido como digno de respeito. Não interessa se a ética mandaria recusar mesmo se o júri tivesse sido realmente espontâneo ao dar esse prêmio. Interessa a satisfação das vaidades. Interessa a autopromoção. O odor do incenso aceso em causa própria, o gozo de ganhar um prêmio pela própria mão.
E a Cultura, a verdadeira cultura de Porto Alegre?
Esta precisa mendigar verbas, esmolar uma centena de cartazes daqui, um xerox dali, ao custo de colocar medalhas de apoio em eventos sérios que o poder público apenas finge apoiar
-- Renato de Mattos Motta poeta, artista plástico, publicitário (51) 3024-6221 (51) 9237-5646
De: mar.rio <mar.rio@terra.com.br> Assunto: Re: Re: Maratona Literária-quando o Estado premia a si mesmo
Data: Quinta-feira, 17 de Dezembro de 2009, 15:53
Olhem, amigos, nosso querido bardo Quintana já dizia que o problema da literatura gaúcha era a "semostrância".
Agora, mais esta atitude coronelista da administração de Porto Alegre, uma cidade abandonada aos buracos e descuidados.
Como escritor, infelizmente, não posso me valer de entidade alguma para discutir sobre isso. Posso falar por mim, e devo pedir esclarecimentos aos envolvidos, como cidadão, mas na possibilidade de uma resposta não acredito. Acredito nas pessoas, não dou crédito aos trocados negociados por algumas.
Não poderia esperar nada menos insólito da secretaria de cultura de Porto Alegre, uma cidade atirada aos descalabros.
Sem que estejam lançados os dados do imaginário, todo e qualquer sistema político é ineficiente e precário.
Ainda, e além, há quem queira que esse estado de coisas tome assentos no palácio do Governo Estadual.
O senhor do tempo nos livre disso, a nós, poetas, atores, dançarinos, artistas visuais, músicos e habitantes desta cidade cercada por muros.
Resta rogar ao Papai Noel que devolva o bom senso ao momento e ao movimento criativo da província. Papai do Céu não irá tratar dessas egolatrias.
Corpo Santo e Sepé Tiaraju, estavam certos: esta loucura tem dono!
Mario Pirata poeta & brincadeiro Estrada Luiz Bettio, 70 (Chapéu do Sol, Belém Velho) Poa, RS, CEP 91787-110 (51) – 98144841
Revogado o Prêmio Açorianos 2009 para Maratona Literária
O texto abaixo iniciou a discussão virtual e com os veículos de comunicação de Porto Alegre que resultou na retirada do Prêmio Açorianos de Literatura para a Maratona Literária de 2009-na categoria de incentivo a leitura, pelo secretário Sergius Gonzaga.
Prêmio Açorianos- de 2009 *
Percebe-se que não existe nenhuma iniciativa importante na área do livro por parte do Estado, nesse caso o município, quando ele premia a si mesmo por ter feito ou fazer aquilo que é sua obrigação. O Prêmio Açorianos desse ano revela isso, a premiação da Maratona Literária como "promoção e Divulgação da Literatura em Porto Alegre"-, a partir de indicação espontânea. Segundo consta existe um corpo de jurados para julgar as diversas categorias do Prêmio Açorianos e a essa, esse ano, soma-se uma curiosa "indicação espontânea". Depois de não ter recebido o Fato Literário de 2009, apesar do esforço realizado junto a a urnas colocadas na Feira do Livro e fora dela -com funcionárias da Divisão do Livro destacadas para buscar votos junto aos frequentadores da Feira (se não me engano o dinheiro que paga esse pessoal é dinheiro de impostos) - percebe-se que existe por parte da direção da atual Divisão do Livro bem como administração cultural do município a busca de promoção pessoal e de suas atividades e a inexistência total de um plano para a cultura de Porto Alegre onde repetem-se iniciativas antigas como o Baile da Cidade- cujos custos de um único dia ultrapassam o valor do orçamento anual do Atelier Livre da Prefeitura. Até quando os intelectuais desta cidade vão permanecer integrando-se em atividades como essas, sancionando-as sem nenhuma discussão? Está na hora de começar a dizer um basta para o cumpadrio, para aqueles que fazem do dinheiro público escada para carreiras nem sempre bem explicadas ou com currículo para exercê-las.
A diferença entre produtor cultural e despachante cultural
Aonde são aplicados os milhões que a Cultura e o Esporte recebem das loterias?
As leis de incentivo a cultura, tanto nacionais como regionais (Lei Rouanet e leis de incentivo a cultura) terminaram por criar uma nova profissão que por falta de uma melhor designação passou a ser chamado de “produtor cultural”. Mas, na verdade, esses “produtores culturais” nada mais faziam/fazem do que preencher corretamente a papelada que visa encontrar a liberação legal para que o verdadeiro produtor cultural possa arrecadar recursos ou das empresas ou do sistema de financiamento estatal, sem nenhuma garantia de efetividade. A correção dos dados exigidos pela lei não significa o acesso à verba.
A atividade, na maioria das cidades brasileiras onde a cultura não possui recursos e necessita de financiamento, para fazer livros, jornais, revistas, cinema, teatro,etc, virou um negócio mantido por especialistas capazes de enfrentar a papelada com as absurdas exigências legais (que não eliminam o suborno, o lobby, a transferência de recursos para as mesmas empresas que dizem financiar os projetos culturais) e pago com percentual dos recursos arrecadados, quando não antecipadamente.
Com relação aos milhões que a Cultura e o Esporte recebem das loterias, por exemplo, não se tem uma prestação de contas, pública, efetiva para a sociedade da aplicação desses recursos, enquanto isso os verdadeiros produtores culturais, aqueles que produzem cultura, têm que ficar na mão desses “especialistas nos meandros burocráticos” para depois mendigar junto a empresas e instituições e assim conseguir realizar o seu trabalho de produzir cultura, quando conseguem vencer a barreiras de gerentes e marketeiros de plantão que manipulam o chamado dinheiro público. Convém começarmos a estabelecer a diferença entre produtor cultural e o mero despachante cultural, (é preciso enfatizar várias vezes isso), o produtor cultural é o que produz cultura, o outro, o despachante cultural é o indivíduo especialista que sabe como preencher a papelada para conseguir ter acesso a liberação das verbas públicas ou leis de incentivo. Também os apressados em dar designações simples, associam esse despachante ao produtor de cinema, teatro, e até de televisão, nada mais incorreto, o produtor, aquele que produz, reúne elenco, busca recursos, etc, corre riscos sempre, enquanto o único risco do despachante cultural pode ser uma vírgula mal colocada na papelada exigida pelo sistema burocrático, sem falar que recebe antecipadamente pelo serviço. Então, para caracterizar melhor essa função é importante distinguir: O produtor cultural corre riscos, o despachante não tem risco.
O despachante é uma profissão digna e que existe em vários áreas sociais, em Estados excessivamente burocratizados e que sobrevivem como, despachantes aduaneiros, de papéis para trânsito, contadores -que preenchem o imposto de renda-, etc ou seja é aquele sujeito que conhece os meandros burocráticos e preenche a papelada necessária para que essa ou aquela atividade possa ser realizada dentro da lei.O despachante cultural definitivamente não produz cultura, quem produz cultura é quem faz cultura.
O Porto Alegre dá Poesia acontece pelo segundo ano em março de 2009, o encontro que reúne poetas de Porto Alegre, além de resgatar a obra de alguns poetas que já exerceram sua arte na cidade também abre espaço para os contemporâneos.Esse ano, no encerramento acontece o I Worksopa de Letras, uma mistura de ritmos, falas, dizeres, amostragens pessoais e impessoais dos poetas presentes ou até os ausentes se na mesa de trabalhos baixar algum.Informações sobre a programação no http://portopoesia2.blogspot.com
Esse texto foi utilizado em duas palestras, na Feira do Livro de novembro de 2007 e no Porto Alegre dá Poesia em março de 2008 e faz parte dos livros Poesia Política e o Livro Negro dos Bardos, do autor.
O século XX foi pródigo em mudanças não apenas na arte, mas ideológicas, políticas, sociais e tecnológicas que alteraram a face do mundo.As grandes mudanças que, na arte, começaram a ocorrer já no final do século XIX desaguaram todas no século XX. Já falei aqui sobre a não existência de uma nova poesia, mas de uma poesia contemporânea e o meu completo desprezo pelas análises literárias classificatórias não apenas na poesia, mas na arte em geral, que segue os modelos mecanicistas dos enciclopedistas franceses do século XVII e suas derivações sociológicas. Hoje, todos os professores bem sentados em suas cátedras, e críticos de arte, em sua totalidade têm, (quando tem, a maioria não tem nada )dois modelos de análise ou duas bíblias - uma, a do sociólogo húngaro Arnold Hauser,aluno de Bérgson e freqüentador do círculo de Lukács e o seu falho História Social da Literatura e da Arte (2 volumes ed. Mestre Jou)- todos, eu disse todos, os livros de formação em uso no segundo e terceiro grau no Brasil utilizam as conclusões sociológicas de Hauser como base teórica para análise artística seja literária ou não, aliás,a obra de Hauser por seu fôlego, ele passou dez anos pesquisando e mapeia de forma bem eficiente a arte européia, é utilizada como base teórica não só no Brasil) e com relação a literatura, a segunda bíblia é novo Literary Criticism do tcheco norte-americano René Welleck (1915-1978) Livro - Teoria Da Literatura E Metodologia Dos Estudos- Ed.Martins Fontes- esse último, Walleck, criou as distinções entre história literária, literatura comparada e critica literária do que antes dele era tudo metido no mesmo formulário, ele também, não é só usado no Brasil. Em entrevista realizada recentemente, o autor do Ócio Criativo, Domenico Di Masi[1], afirma que no século XX o conceito de beleza foi destruído e cita como exemplo um quadro de Mondrian:” como podemos saber se é feio ou bonito? diz ele - já que esse conceito foi destruído”. Domenico ao fazer esta afirmação corrobora a sua formação de sociólogo, europeu formado nas barbas de Hauser e completamente equivocado. O século XXI não rompeu com o conceito da beleza, ao contrário, acrescentou novas visões/padrões a noção de beleza. A grande questão nisso é que arte no século XX rompeu foi com o clássico, mas não rompeu completamente com o acadêmico. E o acadêmico não rompeu com arte, adaptou seus os seus pré-conceitos. E a questão retorna, a visão acadêmica se mantém através da tradição universitária.E esta por sua vez está ligada na formação clássica e nesse aspecto não houve nenhuma grande mudança, nenhum grande rompimento. Um natural da pré Itália de Domenico, Horacio Flaco[2] já possuía preocupações semelhantes quando falava sobre as relações harmônicas que devem existir em uma obra e arte e utilizando a poesia e as artes visuais como exemplo:
Harmonia e proporção entre as partes da obra poética
Se um pintor à cabeça humana unisse pescoço de cavalo e de diversas penas vestisse o corpo organizado de membros de animais de toda a espécie, de sorte que mulher de belo aspecto em torpe e negro peixe rematasse vós, chamados a ver esta pintura, o riso sofreríeis? Pois convosco assentai, ó Pisões, que a um quadro destes será mui semelhante aquele livro no qual idéias vãs se representam (quais os sonhos do enfermo), de tal modo, que nem pés, nem cabeça a uma só forma convenha. De fingir ampla licença ao poeta e pintor sempre foi dada. Assim é; e entre nós tal liberdade pedimos mutuamente, e concedemos; mas não há de ser tanta, que se ajunte agreste çom suave, e queira unir-se ave a serpente, cordeirinho ao tigre.[3]
Toda a obra de Horácio estava ligada ao clássico, por isso sua critica contundente a tudo que não obedece aos padrões da arte clássica, já naquela época. Alexandre Baumgarten (1714 –1762) filósofo alemão, discípulo de Leibnitz, em seu Meditações Filosóficas sobre Alguma Questão da Obra de Arte de 1735- é quem designa pela primeira vez o termo estética e dá a ele o sentido que deveria ter , mas não tem: “visão que trata do conhecimento sensorial capaz de possibilitar a apreensão do belo através das imagens da arte, em contraposição a lógica do intelecto”. A estética, ao retirar a lógica do âmbito da análise da obra de arte, deveria retirar os conceitos de feio ou bonito, bem ou mal ou qualquer outra visão maniqueísta baseada na lógica aristotélica, do terceiro excluído, mas não é o que acontece, basta reler a opinião de Domenico Di Masi. A responsabilidade pelo não entendimento, compreensão e análise apressada que sofre a obra de arte a partir do século XX se deve a esse fator, a formação clássica em contraposição a uma arte que rompeu com o padrão clássico.Ou seja, você analisa de forma clássica algo que não é mais clássico, onde ainda estão envolvidas as noções defendidas por Horácio de ritmo, proporção e harmonia. E ai, você tem críticos, professores enfiando na obra de arte essas noções clássicas sob o ponto de vista do realismo socialista, do socilogues,de visões cienticifistas da recorrência do fenômeno, etc. Então, pergunto: adianta separar história literária,literatura comparada e critica literária se a visão critica seja qual for utiliza a antiga lógica aristotélica clássica, bom ou ruim, feio bonito etc, mesmo camuflando através de textos pretensamente eruditos, mas profundamente adequados a formação clássica? Não. Enquanto do lado ocidental os padrões do clássico eram rompidos o mesmo não ocorreu com a arte oriental que se manteve ligada as suas tradições também ancestrais, mas ao cair nas mãos desses tradutores, professores, críticos,eles tentam aplicar a mesma lógica de análise empregada para identificar a obra de arte ocidental. É bom começar a saber, esses teóricos do passado, que no século XX surgiram novas lógicas,como a do lógico brasileiro Newton da Costa- lógica paraconsistente que admite a noção de conceitos incertos e contraditórios e a lógica fuzzy (lógica difusa) criada pelo professor de computação da universidade da Califórnia o norte-americano/irianiano Lotfi Asker Zadeh - que admite conceitos difusos como, por exemplo: o dia hoje está nublado, em vez do dia está claro ou escuro, feio ou bonito. Ambas as lógicas derivam da lógica clássica, e se precisamos de lógica para buscar entender o mundo que vivemos ou a arte, é necessário saber que a lógica aristotélica teve o seu prazo de validade estourado para a análise da arte. O século XX a esgotou, assim como a análise cultural social, baseada nela.E não há bobagem nenhuma de pós modernidade que a recupere, outro termo derivado do padrão de discurso mecanicista clássico. Acredito que século XXI traga uma nova visão que, talvez, se torne um novo clássico buscando através dessas novas lógicas, a soma que houve na arte, da visão clássica com a ruptura ocorrida no século XX. Alguém é capaz de dizer que não reconhece as contribuições ao teatro de Samuel Beckett e Eugene Ionesco?O teatro de ambos conviveu de forma harmoniosa com o teatro de Brecht, no século XX, assim como a obra de Joyce e Tomas Mann.O mesmo aconteceu com as artes v isuais. E a poesia? Os primeiros estertores do clássico começaram a ocorrer no final do século XIX com Rimbaud, Baudelaire, etc. Marineti, em 1907 deu o passo seguinte, ou o pontapé seguinte, depois vieram os dadaístas e os surrealistas, esse último capitaneado por André Breton, que depois terminar com o que havia e propor novas formas, objetos para apoiar o texto, reuniu-se em torno do realismo socialista. Nada de novo surgiu na sequência, modernismo, concretismo e os outros ismos, poesia praxis, etc. foram derivações dessas vanguardas.Deixo claro aqui que não estou fazendo nenhuma apreciação sobre o conteúdo desses autores e sim dos movimentos. Sobreviveu o paradoxo: o que é importante? Se tudo é importante?Onde está a nova harmonia? O novo ritmo, a nova proporção? Inexistem, porque torna-se impossível aplicar em algo que não obedece a esses parâmetros, sobra então para a análise, o conteúdo, esquecendo a forma e o historicismo. O soneto clássico sobreviveu, assim como o verso livre, como a rima pobre e rica junto com os poemas objetos,o poema piada,etc. Ao esquecer a forma é necessário também esquecer a linguagem,[4] alguns sonetos de Camões são tão belos quanto eram no século XVI,apesar da linguagem hoje ser outra. Sobra, então o conteúdo, volto a repetir. Se é bom ou mau, se está de acordo com essa ou aquela escola, não importa. É preciso separar a lógica da razão clássica da, talvez, ilógica compreensão da arte ou arte tenha sua lógica própria no que só ela pode acrescentar ao homem em sua relação com o universo.
[1] Conexão internacional [2] Quinto Horácio Flaco ( Quintus Horatius Flaccus) (Venúsia, 8 de Dezembro de 65 a.C. — Roma, 27 de Novembro de 8 a.C.) poeta lírico e satírico romano e filósofo.cConsiderado um dos maiores poetas da Roma antiga- O texto chamado Arts Poética tem como título original Epístola aos Pisões (cidade romana situada hoje no território de Portugual) [3] Tradução Cândido Lusitano [4] Não se trata aqui de analisar o avanço diacrônico da língua.
O texto acima aprofunda mais o assunto desse blog.
Em artigo publicado no jornal Zero Hora dia 18 - 9 -2007 * A Dura Vida de Poeta, o professor Luis Augusto Fischer ao falar de poesia cai na vala comum dos críticos maniqueístas oriundos das escolas de análise, quando não historicistas-sociológicas derivadas Arnaldo Hauser [1], usam a lógica maniqueísta aristotélica e não procuram ou não sabem observar as distinções entre história literária, literatura comparada e crítica literária, criadas a partir dos trabalhos do tcheco-norte-americano René Welleck [2] (1915-1978), que gerou campos de estudos distintos e uma ciência da literatura do que antes era uma unidade na “Literary Criticism” ou Literatura Crítica. No texto, o professor Fischer, usa a lógica aristotélica do terceiro excluído. Nessa lógica binária, só cabem dois parâmetros: bom ou mau; melhor ou pior; fácil ou difícil – etc. Segundo ele afirma no artigo :“ao contrário das outras artes, a poesia sozinha, sem a parceria da música e/ou da performance teatralizada, é uma atividade sublimamente difícil”. Ele fala como se poesia fosse uma atividade que necessitasse de complementaridade para se tornar fácil. Eis a lógica maniqueísta:fácil x difícil.E a confissão da quase impossibilidade de compreender a poesia. E continua: “Do ponto de vista mais cético, (?sic) se poderia dizer que assim é porque os poetas não tem a habilidade de formar a sua audiência, por deficiência própria, porque os bons a encontram.” Não é uma maravilha de frase? Uma generalização completa (quem seriam os deficientes, os bons, quem seriam os poetas?Todos os poetas?). Haveria poetas bons? Porque o uso do plural aqui? Ele considera apenas um poeta como o maior poeta brasileiro de todos os tempos. Que outros poetas, segundo ele teriam essa audiência? Fischer parece que não lê poesia, ou se lê não a entende ou ainda, não se esforça para entender, há uma outra confusão sobre a questão da audiência, outra simplificação. Do ponto de vista histórico, a poesia subsistiu oralmente durante séculos, foi à base e viga mestra de todos os outros gêneros literários incluindo o teatro (a teatralização da poesia já existia no início dela, sendo caminho natural da mesma), o romance e o que derivou deles. Qual seria a audiência de um Homero? De François Villon? De um Dante de Alighieri? Lamentável essa visão que desloca a análise para a poesia de audiência,como se poesia fosse mais uma questão de ruído e mídia, como se o importante estivesse no volume ( nos dois sentidos, volume de quantidade e audiência, de áudio) e não na qualidade ou outro fator um tanto “mais” nobre, como a cultura, por exemplo.
Existe várias simplificações, no texto, absurdas para alguém que escreve, o autor do artigo pergunta "quem são os antagonistas relevantes de agora"?Referindo-se a criação poética de Drumond que enfrentou "inimigos" como o parnasianismo, etc. o professor esqueceu as aulas referentes ao modernismo e a profunda sensibilidade do poeta.
Como se o enfrentamento de algum movimento ou o que quer que seja provoque a verdadeira criação poética.
O que os poetas hoje tem a enfrentar?
Criticos como esse,talvez seja uma boa resposta.
A leitura livresca do autor do artigo parece ser um tanto rala, pequena, pois ao considerar “Carlos Drumondd de Andrade o maior poeta brasileiro de qualquer época”, enfatiza no texto uma visão pessoal empobrecedora da literatura brasileira num reducionismo lamentável para um professor, que esquece os grandes poetas que fizeram nossas letras e, como via de consequência estão nos pilares desse país, possibilitando que tivéssemos fala própria (identidade) como Gregório de Mattos Guerra, Gonçalves Dias e sua Canção do Exílio, Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Manoel Bandeira,Cecília Meirelles,Vinícius de Moraes, João Cabral de Mello Neto, o nosso Mario Quintana e tantos outros...
Poesia é um gênero literário que não se mede utilizando os mesmos instrumentos com os quais se mede as três dimensões, estatística é outra área e lógica simples e reducionista também. Uma boa sugestão para o professor Fischer é remeter o nome de Drumondd para o Guineses Book incluí-lo como “ o maior poeta brasileiro de qualquer época”, para ver se eles o registram assim. Difícil. Eles, no mínimo, teriam o bom senso de procurar equipará-lo a outros poetas brasileiros.
[1] Arnold Hauser-História Social da Literatura e da Arte Ed. Mestre Jou- São Paulo 1982 2 René Walleck e Austin Warren -Teoria da Literatura -Ed. -America-Portugal-Lisboa -1972
A reprodiução do artigo pode ser encontrado no blog
Na
ocasião foram apresentadas as novidades da segunda edição do festival de Poesia de PortoAlegre, que ocorre de
06 a 12
de outubro de 2008. Além disso, também foi lançado também a
primeiraedição do jornal PortoPoesia Literatura & Arte.
No dia 16 de julho foi
lançado
a segundaedição do PortoPoesia – Festival de Poesia de PortoAlegre, comapresentação das novidadesque o
evento traz neste ano, entreelas, a parceriacom o
Shopping TOTAL, que sediará todasuaprogramação. Esta parceria
foi oficializada durante o evento, comassinatura de termo de colaboraçãoentre a organização do festival e representantes do Shopping.
A parceriaentre o
PortoPoesia e Shopping TOTAL se insere no
novoconceito
do Shopping, emvalorizar a cultura,
iniciadocom o projeto de
Lifestyle que está transformando o
conjunto de prédios tombados da antigaCervejaria Bopp, emespaçospara diversas expressões da arte,
comoperações exclusivas distribuídas emalamedas e
largostemáticos. De acordocomMarcoCelso H. Viola,
um dos realizadores do evento, essa parceria “desacraliza a
poesia, tirando-a de dentro das livrarias e colocando-a numdos espaçosmais
tradicionais e belos da cidade, ao alcance de
todos os públicos”.
Durante o evento, também foi lançado primeiraedição
do jornal PortoPoesia Literatura & Arte, uma
publicação cultural quevisaresgatar a
tradição do jornalismoliterário no Estado, abrindo espaçopara a divulgação da produçãolocal. O jornal possui umConselhoEditorial, compostopelos gestores do PortoPoesia,
que elegeu trêsgênerosprioritáriospara
publicação: poesia, conto e ensaio.
O jornal, emformatotablóide, possui 12 páginas e terá periodicidade mensal e distribuiçãogratuita.
A segundaedição
do festival PortoPoesia será realizada de
06 a 12 de
outubro de 2008 e contará com uma programaçãointensaque
contempla 12 palestras, 22 sessões de leituras de poesia, 4 rodas
de poesiasparacrianças, 14
performances, 11 debates, 12 espetáculos, 10 oficinas, diversoslançamentos, sessões de autógrafos, saraus, apresentaçõeslivres, sessões
de cinema e exposições de acervos, entreelas uma MostraNacional
de Revistas de Poesia. Serão 10
horasdiárias de atrações totalizando 85 apresentaçõesem
70 horas de atividades culturais. A organizaçãoestima a
participação de mais de 8 milpessoas,
durante o evento. Até o
momento, mais de 50 profissionais da área da cultura
e poetas confirmaram suaspresenças
no comando das atividades, entreeles,
Armindo Trevisan, Donald Schüller, Alcy Cheuiche, Lau Siqueira, Luiz
Coronel, OliveiraSilveira, Paulo Custódio, José Eduardo Degrazia,Mario Pirata,
entreoutros. O evento
acontecerá emdiversosespaços
do Shopping Total. Como na ediçãoanterior, a programação é gratuita e aberta ao publico.
O
PortoPoesia é umfestival de poesia concebido da união
dos poetaslocais, com o
objetivo de abrirespaçopara as produções
gaúchas e tornarconhecidoesteimportantegêneroliterário, a fim
de democratizar a informaçãoliteráriaemPortoAlegre. Aidéia é mobilizarpesquisadores, professoresuniversitários, escolas de ensinomédio,
tradutores de poesia, profissionais do teatro, músicos,
artistasplásticos, letristas, e poetasconvidados, propiciando o acesso à cultura
e educação, estimulando o desenvolvimento do gostoliterárioemcrianças, jovens
e no públicoemgeral.
Além
do Shopping TOTAL o PortoPoesia contacom o apoio das Secretarias de Educaçãoe
Cultura de Porto Alegre.
Exumando pó ou o filho do barbeiro de Fernando Pessoa
Marco Celso Huffell Viola
A mídia e um círculo de parasitas que navega entre as academias adora comemorar, festejar a obra de autores, sejam quais forem, e os centenários,então, são o motivo ideal, cem anos disso ou daquilo.No ano seguinte a obra é esquecida e, na mesma velocidade, um novo autor “centenário” é rememorado. E, todos esses comemoradores, mordem e ganham alguma coisa com isso, ou seus quinze minutos de fama ou dinheiro mesmo. Agora chegou a vez dos 120 anos de nascimento de Fernando Pessoa. Por que 120 anos?Não entendo a razão de não comemoraram os 119 anos de nascimento ou 121, ou 119 e um quarto... Um recente documentário da Globonews sobre os 120 anos de nascimento de Fernando Pessoa só mostrou o quão foi pequena ou miúda (como dizem os portugueses) a vida de um dos maiores poetas da língua portuguesa e menor ainda a imaginação do repórter, que a determinado momento chega aproximar o poeta português a Leonardo da Vinci em função de duas invenções dele, a carta-envelope e a máquina de escrever com tipos móveis,invenções essas das quais não existe o menor registro. Por mais que o jornalista buscasse alguma coisa, revirando velhas anotações, fotos, parentes, mais distante ficava da obra do poeta. E, surge a clássica entrevista com um “estudioso,especialista” junto à estátua de bronze que paralisa em metal uma também fase miúda e magra da vida do poeta como se aquela fosse a verdadeira imagem dele.Uma caricatura em metal como tantas outras que povoam as praças do mundo de fantasmas inúteis que só servem para abrigo das pombas ou para os ladrões de bronze. Dos especialistas,parentes, sobre a vida de Fernando Pessoa, não havia nada mais a declarar sobre ele que já não se soubesse.Em determinado ponto do documentário o jornalista resolveu entrevistar o filho do barbeiro do Fernando Pessoa...Incrível.Há no documentário, também um filme da ex-namorada, do poeta. Pra quê?Vê-se a distância uma senhora com rosto comum, pateticamente, já morta, abanando de uma janela.Nonsense puro. O poeta não deixou a guarda de sua alma em fotos, parentes desimportantes ou mesmo no esquema de elétricos feito por ele para encontrar com a namorada.Aquilo tudo está velho desfocado,amarelo. O que ele deixou de importante foi a sua obra, não sua vida.”Viver não é preciso.”E ele viveu pouco, quase nada, o suficiente apenas para escrever.Homenagens nunca as teve,apenas um livro publicado durante sua existência física.Mas isso não interessa esses exumadores de pó como se apenas a realidade vivida pelo poeta possa revelar ou dizer sobre sua identidade,impossível para alguém que em toda a sua obra negou a sua.A vida prática do poeta português, a não ser seu encontro com Alesiter Crowlewy e a correção de seu horóscopo, nada teve mais rumoroso,importante, nada absolutamente nada estranho ou digno de nota, ao contrário da obra. A sua vida pode ser comparada aos brasileiros Drumond e Manoel Bandeira,uma vida comum, banal,cuja vida interior é muitas e várias vezes mais rica e habitada que a vida exterior. A obra do poeta é sua vida interior,o exterior é apenas um rasgo, uma fresta aonde o verdadeiro poeta espia.Há, as exceções, quando a vida do poeta mistura com sua arte,então, existe algum significado associá-los,mesmo assim não completamente, poesia não é arte da realidade. Recentemente ouvi um desses analistas da obra alheia, ansioso por declarar algo importante,sobre Mario Quintana.Contemporâneo de Mário (eram colegas de redação) ele falou sobre o poeta:“aprendi mais com o silêncio de Mário do com que com suas palavras.” Traduzindo: o poeta não falava com ele. Não dava a mínima importância a esse analista futuro de sua obra. Não é ótimo? A necessidade de aduzir, enxertar-se na pessoa da poeta é tanta que vale tudo, mesmo que isso seja completamente insignificante e desnecessário.Mas o que afirmo aqui pode ser associado a outros gêneros de arte, todos têm os seus “especialistas, não criativos” sem luz própria que precisam para sobreviver, se aquecer como mariposas na luz alheia. Aliás, o filho do barbeiro de Fernando Pessoa perdeu a oportunidade de recolher algumas fiapos do cabelo do poeta ou de sua barba e guardar para posteridade se soubesse, na ocasião, de quem se tratava.E se fosse um filho de barbeiro com imaginação poderia dizer até que Fernando Pessoa pagava com versos ao corte de cabelo do fígaro seu pai.Mas não, tanto ele como o repórter eram um pouco sem imaginação e ficamos nós todos pensando o que poderia fazer um poeta dentro de uma barbearia, imagino que ele também poderia ter escrito o poema A Barbearia, auxiliando, e muito, as entrevistas futuras do filho do barbeiro...Ficou-me a impressão (ou me ficou a impressão?) que o poeta não gostava desse barbeiro e preferia o dono da tabacaria, resta saber se existe algum sobrevivente dessa loja onde ele comprava seus fumos, e se ele aparecer, certamente, vai colaborar apenas com a nossa compreensão da capacidade pulmonar do poeta ou vai esclarecer e espalhar mais fumaça sobre a obra de Alberto Caieiro ou Ricardo Reis?
Por mais dez anos fui setorista na área e economia de vários jornais,onde cheguei a exercer até a função de colunista fantasma de um colunista preguiçoso, além de ter realizado vários cursos e seminários de especialização sobre economia. Sempre entendi o jornalismo econômico como qualquer outro setor dentro de um veículo de comunicação, como um tradutor dos acontecimentos ou fatos. O jornalista funcionando como um filtro, com alguma reflexão ou mesmo buscando mais de uma visão de um mesmo acontecimento, possibilitando ao leitor uma melhor escolha e compreensão sobre o relatado. Esse jornalismo sempre foi diferenciado do chamado jornalismo chapa branca que proliferou nas décadas 70/80, mas não deixou de existir e repete e repetia apenas a voz do dono, sem critica ou reflexão. Enquanto na década de 70/80 o jornalismo estava amarrado e amordaçado por censura, na década de 90 a censura econômica aperfeiçoou o serviço, e a critica e a reflexão, no jornalismo, ao ceder ao poder econômico ou ao se tornar política ideológica e/ou partidária atirou ao brejo qualquer possibilidade de seriedade. Revendo recentemente uma retrospectiva do programa Manhattan Connection- um dos mais antigos programas de televisão por assinatura no Brasil, com 15 anos de existência- ficou bem claro que os melhores momentos do programa foram aqueles em o jornalista Paulo Francis esteve presente. Em 15 anos de programas semanais foi só o Francis que produção conseguiu encontrar. A retrospectiva terminou sendo uma homenagem merecida a ele. Paulo Francis, antes e tudo, era um jornalista que amava e respeitava a sua profissão, quando presente, no programa, os outros participantes eram meros coadjuvantes diante do brilhantismo contraditório de Francis,”só as pessoas inteligentes são contraditórias”, dizia ele com razão, “a unanimidade é burra”, completaria Nelson Rodrigues. Entre as várias questões apontadas por Francis estava uma critica a linguagem do jornalismo contemporâneo, voltado para uma mídia réles, simplória, repetitiva e de linguagem empolada.Em um dos momentos, Lucas Mendes fala de alguém, que ele, Lucas, considerava um grande jornalista, Francis pede, então, que cite uma frase, uma única frase desse jornalista: ”-Me cita uma frase, uma só, dele”,diz, e Lucas não consegue, sem se dar conta que o que Francis queria, e afirmava, naquela solicitação, era que o jornalismo é feito de frases e opiniões.Se o jornalista não é capaz de formular uma frase inteligente, não possuía opinião, não era um grande jornalista. Francis fez parte de uma estirpe que deu grandes nomes ao jornalismo do Brasil, como Nelson Rodrigues, Rubem Braga, Stanislau Ponte Preta, os também poetas Paulo Mendes Campos e Millor Fernandes, entre outros que estiveram também no Pasquim e renovaram a linguagem do jornalismo brasileiro..Acontece que esse jornalismo que Francis praticava,é raramente feito hoje no Brasil.Toda aquela simplicidade,análise e despojamento da linguagem, duramente adquirida pelo Pasquim, perdeu-se no tempo, retrocedeu. No próprio programa Manhattan Connection, depois do Francis, a critica é rápida, rasteira e desaparece do programa,quando não fica unívoca, não se vê frases inteligentes,brilhantes, mas sim um programinha de dicas novaiorquinas e algumas discussãozinha sobre fatos menores da mídia norte-americana, aquela viceralidade que era dada pelo Francis hoje,esta dividida em patéticos comentários que mal conseguem ultrapassar o nível da banalidade.
Profetas do dia seguinte
E essa banalidade interpretativa empolada pode ser amplamente apreciada em vários telejornais e jornais brasileiros e para citar um exemplo, no recentemente programa exibido na Globo News Espaço Aberto- Crise Externa Qual é a Natureza da Crise?1 Nele,uma das principais setoristas de economia da Rede Globo, entrevista dois bem nutridos economistas brasileiros que deitam sabedoria sobre a crise norte-americana, que ninguém atualmente sabe qual é o tamanho do rombo e que derruba por terra várias gerações de expertos ou espertos, economistas, inclusive estes, que se soubessem que ela estaria por vir certamente teriam ficado milionários,aplicando ou indicando aos seus clientes onde aplicar seus recursos em locais protegidos dessa crise. E a prova mais contundente que nenhum desses economistas sabe exatamente o que está falando e que são profetas do dia seguinte,é a pergunta: Como não sabiam que a economia norte-americana é uma bolha vazia já há vários anos?E com tantos cálculos econômicos disponíveis não sabiam quando ela chegaria ponto de arrebentar? Que a economia norte-americana deixou de viver de sua riqueza e parou de poupar a muito tempo, para viver da poupança do resto do mundo,é sabido desde a década de oitenta, quando o controle do petróleo passou para mão dos árabes e os carros japoneses entupiram os quintais, antes produtivos de Detroit –os recentes documentários do Michel Moore são bastantes claros a esse respeito- a transferência dos empregos para países onde havia mão-de-obra mais barata e os fabulosos investimentos especulativos árabes na economia daquele país, terminaram por deixar o quadro de artificialidade bem visível. Até onde se sabe todo o sistema capitalista está alicerçado em três bases, setor primário, setor secundário (indústria) e serviços (há escritórios na Índia que encarregados de fazer o imposto de renda de empresas norte-americanas).Não apenas a riqueza norte-americana se espalhou para todo lado, como os empregos, ficando apenas o que era mais barato fazer e produzir no país,nem a recente e multimilionária indústria eletroeletrônica escapou,procurou Taiwan, China, Índia,e assim, o crédito substituiu a produção, mais cedo ou mais tarde, alguém teria que pagar a conta. Não duvide se dentro alguns anos os mexicanos não tenham que fechar as suas fronteiras aos norte-americanos que podem inverter o fluxo correndo para lá em busca de uma vida melhor.. Se estes profetas do dia seguinte fossem tão sábios assim, um Banco com 105 anos, como Barins não teria quebrado com o cofre cheio de análises econômicas, sobre todo o mundo, e salas abarrotadas de economistas bem nutridos e com apenas um operador mal intencionado na Ásia.Ou não teria acontecido o recente rombo suspeito num dos mais importantes bancos franceses, que na minha opinião, preferiu comprar a culpa de um funcionáriozinho do quinto escalão do que jogá-la sobre a diretoria por aplicações mal feitas na bolha vazia norte-americana, no valor de sete bilhões de dólares. É muito dinheiro para alguém do final da fila do banco mexer sem ter até os parentes colaterais de quinta geração muito bem vigiados. E, vem, um destes economistas brasileiros depois de meia hora usando a palavra commodities, dizer que a época de ouro acabou. Frase imediatamente repetida pela entrevistadora do programa, sem nenhum critério e análise maior por parte dela. Mas que época de ouro, cara-pálida?Época de ouro de quem, acabou?Dos norte-americanos?Não me parece que eles tenham vivido numa época de ouro nos últimos vinte anos,mas com desemprego e recessão. Então, vamos continuar dividindo a conta que não fizemos? Será?Durante o governo Reagan o Tesouro norte-americano resolveu subir os juros para conter a sua inflação (sem olhar para o lados) e quebrou o México que mandou um bilhetinho para Washington, dizendo: “não podemos pagar a conta”. E foi criado o chamado efeito Tequila em que o Brasil entrou junto,o culpado, ora, é claro, o México.Os economistas bem sentados, aqui em vários locais do mundo ao contarem essa história, até hoje, lançam pedras no México. 2 A era Reagan acabou sem que aparecessem os prometidos empregos e o fim da recessão, o Clinton não conseguiu nada além de azarar uma estagiária e fazer com que os homossexuais tivessem direito de freqüentar as forças armadas. Os Bush, republicanos, arrumaram duas guerrinhas na mesma região para ver se melhoravam as finanças internas e faziam com que opinião pública do país deixasse de se preocupar com problemas tão simples como subsistência, continuou tudo igual.Só adiaram o problema. O sistema capitalista tem infinitas formas de se adaptar,é um perfeito camaleão, quem disser o contrário não andou lendo história ultimamente,ganha com tudo, incluído a desgraça alheia, quebra uns bancos aqui e ali, outros engordam,desfazem-se algumas fortunas,criam-se outras, alguns milhares de norte-americanos perdem suas casas,surge uma novo mercado de residências recicladas ou coisa que valha, e segue o baile, até a próxima crise. Mas nós aqui, no quintal, pelo que sei, nunca vivemos uma época de ouro e sim, continuamos numa época de metais menos nobres,e miseráveis como sempre fomos, mas e estamos muito bem em algumas commodities como, ferro, petróleo,grãos, carne,laranja etc, continuamos em alguns lugares, com mão de obra escrava e, é impossível perder o que nunca tivemos, uma época de ouro, por exemplo. Mas perdemos a capacidade de critica e análise e a simplicidade de traduzir os fatos, isso sim.
1) Exibido em 13.03.2008. 2) Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano- de autoria do colombiano Plínio Apuleyo Mendoza, do peruano Álvaro Vargas Llosa e do cubano Carlos Alberto Montaner, com prefácios, de Mário Vargas Llosa e de Roberto Campos.
A Portelinha é a favela mais segura atualmente do país e a mais inocente.Seu líder comunitário não é traficante e, sim, um simpático sujeito corrupto e corruptor que para se manter e manter funcionando o seu império apenas faz extorsão dos comerciantes locais.Coisa que esses concordam amavelmente dando seu dinheiro para ver todo mundo sorrindo alegre, com todos os dentes, na favela.Na Portelinha o tráfico não tem vez e ninguém empunha armas.Na recente guerra pelo poder dentro da favela, os simpáticos personagens principais esconderam-se atrás de uma mesa de bilhar para se defender das balas dos fuzis AR15 da facção contrária e, só morreram os personagens idiotas, os espertos sobreviveram todos.Por outro lado, a tropa de elite não invadiu e nem atirou em ninguém. È máximo que a ficção nacional novelística conseguiu atingir.
Os roteiristas da novela exageraram na dose de realismo parafantástico, com essa novela, mostrando como é bom viver numa favela na cidade maravilhosa,samba, suor e cerveja à vontade o ano todo.O poder público do Rio de Janeiro deveria aceitar as sugestões dos roteiristas da novela e mandar seus funcionários fazer um estágio mais intenso com o administrador da Portelinha para estender o seu modelo para outras favelas do Rio, multiplicando-o, já que é um exemplo completo dos tempos da bela e poética malandragem do Rio de Janeiro,artigo que o país deveria colocar na sua pauta de exportação tamanha aceitação nacional como exemplo de viver bem com o esforço alheio, com a mulher alheia,com o dinheiro alheio.A música de Gonzaguinha que pontua as cenas do personagem principal é outra descaracterização da intenção da própria.A rapaziada a que se refere, com certeza, não é personificada pelo personagem de Antonio Fagundes.
E continuando o baile de absurdos, a Universidade particular aproxima-se da favela para captar novos alunos que precisam fazer um prova muito rigorosa, quando se sabe que isso acabou no Brasil, alguém precisa atualizar os roteiristas nisso também, o chamado vestibularda maior parte das universidades pagas não passa mais de umaredaçãoque pode ser feita de qualquer jeito que o candidato é aprovado imediatamente,bolsas integrais? Onde?Só para os moradores da Portelinha.E a Universidade pública, sumiu...Não quer saber de aluno que mora em favela.
O tratamento dado ao racismo chega as raias do deboche, por um lado,dois personagens vencem a tudo e a todos os preconceitos com o amor e um filho,por outro, uma acusação falsa que mancha o caráter ilibado de um professorsugerindo que o acusador se vale da pigmentação de sua pele para obter vantagem monetária em conluio com um corpo doscente caricato de uma universidade mais caricata, com uma diretoria hilária e muito mal educada.Todos os personagens ficariam bem num sanatório para doentes mentais incluído os figurinistas que não acertam os óculos para conseguir fazer com que o ator José Wilker consiga uma olhar de intelectual inteligente e não de amante pouco entusiasmado da loira falsa, dona da Faculdade.
Do lado do mal, está outro escroque que é do mal porque não é risonho, mas é tão chantagista e ladrão quantoo personagem principal da novela e, é também estereotipo dos empresários nacionais quase sempre retratados como indivíduos sem caráter, ladrões por índole que não medem esforços para realizar suas empresas e, para conseguir vencer, são capazes de roubar até moças ingênuas e indefesas.
A caricatura quando bem feita, em ficção, quando bem realizada tem valor,Dias Gomes e mesmo Janete Clair não deixaram bons herdeiros no ramo dos novelistas nacionais.Tanto o molde quanto o resultado dessa novela é lamentável.
Quando Aldos Huxley publicou Brave New World, em 1932 (Admirável Mundo Novo, na tradução para o português)a civilização industrial dava os primeiros passos e a grande novidade era o início da produção em massa dos carros Ford.
Huxley na sua criação imaginou uma civilização onde as pessoas fossem também produzidas em massa e criados seres perfeitos que pudessem ser corrigidos, caso houvesse algum erro na sua fabricação,possibilitando assim o surgimento de escravos que não criassem problemas sociais, bem como seres superiores.Parte da civilização criada pelo escritor inglês chegou mais rápido que, talvez, ele próprio imaginasse. Antes da Segunda Guerra e, durante, os nazistas começaram a fazer experimentos nesse sentido, tentando realizar uma raça pura através das casas de acasalamento onde eles reuniam casais com ancestrais arianos tentado gerar filhos perfeitos.O resultado foi o que o que se viu, apesar de todo os cuidados, nasceram muitas crianças com defeitos físicos inexplicáveis.O que eles fizeram, além disso, buscando esse resultado está documentado demais, mas nunca é demais falar sobre o assunto.
Hoje se sabe que essa idéia de raça pura não nasceu sozinha havia uma arcabouço cientifico que a sustentava a eugenia ((do grego- bem nascer) o termo foi criado pelo matemático inglês Francis Galton, primo de Darwin e estuda as melhores condições para reprodução humana.A ciência que começou par e passu com o darvinismo continua viva hoje, bem mais modernizada e virando negócio nos bancos de DNA e nas pesquisas que envolvem esse novo caminho da ciência contemporânea.
E a questão do envolvimento ético dos cientistas volta com a toda sua força quando se fala em uma pesquisa como a que deverá ser realizada com jovens prisioneiros da Fase(antiga Febem, troca o nome, mas a situação dos jovens prisioneiros continua idêntico), e jovens considerados não-violentos, pelas duas das principais universidades do Rio Grande do Sul, onde se pretende estabelecer parâmetros que conduzem a descoberta da origem da violência nos jovens aprisionados através, do inclusive, estudo do DNA.
A pesquisa lembra em tudo as práticas nazistas, prisioneiros sendo submetidos à investigação da ciência armada fisicamente e com toda a sabedoria de um psicologia pífia,de parâmetros subjetivos, quando se sabe que o pesquisador interfere no resultado da mesma, sem levar em consideração a situação física e psíquica dos apenados. Compará-los com jovens que não estão na mesma situação, é coisa de uma infantilidade primária.
E correndo por fora chega à nova deusa da ciência atual, o DNA.
Essa confiança irrestrita e sem controle numa ciência que usa o dinheiro público,- uma vez que Universidade Federal do Rio Grande do Sul o utiliza,- na busca aparente do bem estar coletivo,nem sempre pode ser o que aparenta ser. Numa sociedade organizada ou que se pretende como a nossa, é importante salientar que essa mesma confiança levou a ciência aos erros, com os já citados, e a médicos que castravam os pobres ou recomendavam a lobotomia como cura para distúrbios psíquicos, entre várias outras atrocidades que não convém enumerar aqui.
É preciso estar muito atento a isso.
Vamos tecer algumas hipóteses: E se apenas a pesquisa de DNA consegue descobrir que existe um gen da violência? Os portadores desse gen serão separados do resto da humanidade?Com quê?Com marcas adesivas?Tatuagens?Com chips subcutâneos? Confinados já ao nascer? E, se esses brilhantes pesquisadores descobrem, também, que determinadas pessoas têm tendências a carregar mais peso(como burros de carga) que outras, vamos separá-las para usá-los como serviçais?
No gado isso já está sendo feito, agora cabe a nós decidir o quanto somos gado nas mãos de uma ciência que esqueceu a ética em algum canto do seu bolso.
Eis a sociedade de castas previstas por Huxley e tentada realizar pelos nazistas e que os pesquisadores na santa inocência( que não acredito que a tenham,deve ser mais barato, mais fácil e mais cômodo-menos repercussão negativa social- fazer essa pesquisa aqui, do quem em países mais avançados) buscam encontrar aqui no Rio Grande do Sul. Se a sociedade que cerca esses pesquisadores ficar indiferente ao que eles fazem, justificados por seus títulos acadêmicos, talvez um dia eles consigam criar essa sociedade de sonho totalitário.
Sugestão de leitura
Admirável Mundo Novo-Editora Globo 1984- George Orwel- Editora Nacional http://super.abril.com.br/superarquivo/2005/conteudo_79720.shtml
Até quando seremos uma nação de perdedores? O Dólar Furado
Aparentemente está em curso no país mais um estelionato do governo federal contra a nação.
Talvez agora fosse a hora da Polícia Federal montar mais uma operação de nome misterioso que, sugiro que, desta vez sejao Dólar Furado e começar a investigar, mesmo, a própria casa. Ou seja, o governo federal. Ou talvez, isso seja obrigação do, quem sabe,Ministério Público.
A razão da necessidade de uma investigação, na minha opinião, está alicerçada na opinião de um importante jornalista de economia, sobre a recente queda do dólar.Ele não sugere isso, essa investigação, quem sugere sou eu, afinal, como cidadão desse país tenho todo o direito de exigir que o poder público funcione adequadamente e não prejudique a nação que representa.
De acordo com o respeitado jornalista de economia Luis Nassif, a recente queda do dólar está alicerçada em acordos um tanto suspeitos, diz a coluna dele do dia 16/05/2007 que tem como título As gambiarras e o câmbiohttp://luisnassif.blig.ig.com.br/
”Algumas semanas atrás chamei a atenção para o acerto em curso entre a ANFAVEA (Associação Nacional dos Fabricantes de Autoveículos) e o novo Ministro do Desenvolvimento Miguel Jorge. De repente, o ex-presidente da ANFAVEA Rogério Goldfarb mudou de opinião e passou a dizer que a apreciação cambial não era problema.Estava na cara o início do processo de acertos com os setores mais influentes, para calar a crítica contra o câmbio. Ontem, entre os setores “desprotegidos” que serão beneficiados com redução de tributos e encargos, estava o sofrido setor automobilístico brasileiro”.
A denúncia do jornalista, para mim, é grave, mais alguém dá importância a ela?
E a conta? Quem vai pagar esses acordos, não bem explicados?
Aparentemente toda a sociedade brasileira, todos os que estão do lado de fora do governo e dessas grandes empresas, ou seja, todos os que não se beneficiam com a especulação de um câmbio mantido artificialmente com o chamado dinheiro público.
E a mídia? Porque está a favor?O próprio Nassif em entrevista a Tv Cultura no dia 15 de maio explica: toda a mídia aumenta seus lucros na compra de material importando, tvs a cabo, revistas, etc, têm lucro com o dólar baixo.
Há setores da mídia exultantes com esse dólar furado e oexagero é tanto que, segundo Nassif, uma repórter de tv a cabo sugeriu acandidatura do atual presidente do Banco Central nas próximas eleições para a presidência da república.
Não é uma beleza?
Como é a segunda vez que acontece isso, em duas administrações subseqüentes, na primeira foi no governo Fernando Henrique que, segundo consta, já fez a sua mea culpa sobre esse “erro” econômico.
Não consigo imaginar que seja a repetição não intencional de uma mesma política, mas de uma política intencional para beneficiar os mesmos setores em detrimento de toda a economia do país que perde sempre. Aumentamos empregos na China e, em vários outros países onde os empresários brasileiros fazem compras ou grandes negócios com o dólar baixo. Perdem-se empregos aqui, quebram empresas pequenas ou seja, perdem todos. E quando a economia do país como um todo perde, repito, perdem todos.
Será que não chega desse país ser um país de perdedores?
Cultura não é entretenimento- ou então vamos criar o ministério do entretenimento
Sou fã de carteirinha de Gilberto Gil há muitos anos, compositor e músico sensível como raros no Brasil, não fiquei admirado com a sua aproximação com o atual governo. Gil sempre foi um artista engajado nas lutas sociais, sofreu com a censura no período da ditadura e mesmo depois continuou atuando politicamente, além de manter a sua carreira de músico e compositor. Atitude incomum nos artistas brasileiros, contemporâneos, que preferem ignorar o seu em torno ou então, mantém atitude de alienação, como se o artista estivesse fora do mundo,quando não têm atitudes meramente reativas ao noticiário da mídia, porque perderam a capacidade de refletir sobre a realidade adjacente. Não sei se Gil precisou assinar ficha em algum partido para atuar como ministro da cultura, o que não chega a ser relevante. Também não achei inadequada a sua indicação, li várias entrevistas onde ele dizia acreditar ser possível atuar dentro do governo e auxiliar a melhorar a realidade do país.
Houve ocasião em que ele foi vaiado por estudantes insatisfeitos com o seu ministério e do da educação.Pensei que depois disso ele iria se afastar do governo já que como artista popular nunca havia sofrido uma vaia ou condenação do seu trabalho pelo público. A ligação entre política e a arte quando se torna muito presente na obra do artista, acaba prejudicando a arte do mesmo.Fica mais difícil separar os dois, quando o artista põe a sua arte a serviço da política.E, nessas ocasiões, raramente o público separa o artista do político que exerce um papel momentâneo na vida do país. Minha admiração pelo seu status de político aumentou depois disso, mesmo sabendo que o Estado que ele representa quase nada tem feito de importante para a cultura, é possível contar nos dedos as novidades surgidas nesse governo na área cultural.As leis de incentivo continuam a mesma droga de sempre, a do livro, não afetou em nada o preço final do livro, teatro, música clássica, todas as artes e artistas, todos, invariavelmente, continuam correndo atrás de patrocínio privado, não existe realmente uma política pública real de apoio à cultura nesse país.Não posso condenar o ministro por esse quadro que vem de longa data e não sei mesmo o quanto de novo ele tem feito para modificar essa situação ou apenas segue apagando incêndios. No dia 8 de maio ele deu uma entrevista ao Observatório da Imprensa sobre as novas políticas para tv e internet.Durante a entrevista mostrou todo o seu entusiasmo com a criação desse novo sistema que começa a ser apoiado pelo atual governo e que pode realmente possibilitar a democratização e a pulverização da cultura no país, através da facilidade do acesso ao uso maciço da tv e internet, se tudo o que se diz sobre o assunto for realmente verdade. Na longa entrevista que o ministro deu a Alberto Dines, na minha opinião, resvalou em apenas um assunto: Confundiu cultura com entretenimento.
Mas essa não é uma confusão só dele, o repórter Dines, mesmo com larga experiência que tem, entrou na do ministro e pareceu acreditar que cultura é sinônimo de entretenimento ou as duas são a mesma coisa.Se alguém tem alguma dúvida sobre isso basta ir atrás do dicionário para conhecer a distância abissal entre as palavras e o significado de cada uma. A noção que cultura é entretenimento (ou diversão, para usar um sinônimo mais adequado) começa a partir da segunda guerra mundial com o predomínio cultural norte-americano sobre a arte. E nenhum segmento artístico ficou imune a isso e, a televisão brasileira, que era o assunto em debate do ministro com o jornalista, seguindo o mesmo padrão da tv americana tornou-se sinônimo de diversão ou entretenimento.Mas é preciso que alguém diga ao ministro, que também, até onde se sabe, ele não é um ministro do entretenimento e sim da cultura, que a cultura está acima, além e também subjacente ao entretenimento.Você pode ver um programa de televisão na Bósnia, cópia de um programa de televisão americano que, mesmo assim, os bósnios vão se comportar como bósnios e falar como bósnios, ou seja, cultura é o que faz um sujeito ser bósnio ou não bósnio.Entretenimento é o que os bósnios fazem pra se divertir, ocupar seu tempo ocioso como bons bósnios que são. O entretenimento é um aspecto da cultura e não a cultura em si.Será preciso ser mais específico que isso? Se a arte, a filosofia ou a educação, por exemplo, fossem feitas apenas para entreter talvez vivemos no melhor dos mundos e a nossa vida fosse um show permanente onde passaríamos cantando e abanando os braços para cima, feito idiotas, ou num filme hollywoodiano onde viveríamos iluminados pelos holofotes.
Continuo fã do artista, do ministro nem tanto apesar da confusão sobre esse assunto não ser só dele.Agora, que esse país está precisando muito de cultura isso está.
Um textinho de Cecília Meireles-e um pouco de tv aberta
Pedro Bial em um dos últimos episódios da série BBB7, para criar um clima na despedida de mais um participante, resolveu ler um “textinho de Cecília Meirelles”, os participantes que não tinham a mínima noção de quem é/ou foi Cecília, ficaram sem entender a razão da leitura do “textinho”, o respeitável público também não entendeu, porque também não conhece uma da maiores poetisas da língua portuguesa e sem exagero da poesia ocidental.
Bial que foi um dos jornalistas importantes desse país, parece que resolveu jogar o seu currículo de grandes reportagens e entrevistas como as realizadas com Darcy Ribeiro, João Cabral de Mello Neto, entre outras, no lixo da comunicação imbecil e rasteira. E tem surtos como esse, onde tenta aparentar algum aspecto de intelectual e acaba atirando na banalidade o nome de Cecília Meireles em um programa realizado para 50 milhões de semi analfabetos ou analfabetos culturais, com participantes semi-analfabetos apresentado por um jornalista que esqueceu ou nunca teve a noção entre o importante e o fácil.
É fácil enganar um povo como o nosso, carente de tudo.
Basta brincar com a esperança daqueles que nada tem, constranger mulheres de poucos recursos a mostrar seu corpo e o diabo dá risada feliz a cada domingo que os índices de audiência empatam entre as mais importantes emissoras do país.
E, essas emissoras, sem nenhum compromisso com nada a não ser com o seu faturamento, exploram a credulidade, empurram pseudomúsica, pseudocantores, pseudo-atores guela abaixo dessa multidão de miseráveis.
E vamos rir do sujeito que caiu no chão, que caiu do telhado, que caiu, que caiu de algum lugar, que levou uma pancada, tudo narrado por um apresentador mal educado e grosseiro.
Aliás, a grosseria é marca registrada de alguns programas, onde a grosseria intitucionalizada tenta aparentar independência dos valores mínimos de convivência social e respeito físico pela integridade do próximo quando na realidade demonstra é falta de inteligência em fazer algo melhor.
E o resto da programação segue num ritmo de gincana, de todo o tipo, cada uma mais infantil que outra.
Quando não aparece um padre cantor, numa emissora católica, travestido de padre, usando um sobrepeliz vermelho que canta rebolando em cima do altar em meio a uma missa, cantando canções que ofendem a mínima noção do que seja música e letra. E outro, na mesma emissora católica, oferece à venda uma jóia em forma de cruz com terra recolhida em Israel.O clip da busca dessa tal “terra santa” pelo padre nada fica a dever aos clipes mais bregas da MTV, é de arrepiar, chega a ser pornográfico, o padre caminhando descalço, olhando para o infinito, entre as águas do Rio Jordão.Repulsivo.
Enquanto isso, a igreja diz que faz, esse ano, a campanha da fraternidade sobre a Amazônia e essa emissora de tv não realiza um documentário, uma notícia, uma pesquisa sobre a Amazônia e, depois da missa, volta o padre cantor a repetir ladainhas para uma imagem de um santo pregada na parede.E repete suas frases com tanta veêmencia, que só sendo santo pra aguentar um chato daquele tamanho.
Mas, enquanto a tv católica ignora a Amazônia, a outra, para enfeitar a sua grade de programação, gasta alguns milhões para produzir uma série sobre da Amazônia com veleidades sociais, utilizando uma mistura de textos que a autora não credita a ninguém a não ser a sua genialidade. Mas isso é para ser exibido às 23 horas, quase proibido para os menores em inteligência e percepção que podem interpretar mal aquelas questões de conflitos agrários que terminam por glamourizar e mitificar a luta de Chico Mendes e tantos que morreram naqueles conflitos que continuam ocorrendo, tornandos palatáveis e de fácil assimilação, tirando desses conflitos agrários o que tem de importante em troca de uma maquiagem mal feita, mas de aparente bom gosto.
Em nome da audiência criada e forjada pela estrutura dessas programações, há personagens como Jô Soares cujo programa copia os modelos de talk show norte-americanos, e que tem por objetivo de fazer rir permanentemente uma platéia escolhida de estudantes, que autentica a mediocridade das entrevistas. Quando eles riem, a entrevista vai bem, quando eles ficam quietos é hora de chamar as vinhetas e trocar o entrevistado.
Em recente entrevista realizada com o poeta Affonso Romano Santana que divulgava dois livros seus de poesia, na ânsia de agradar o auditório, ele pergunta se o Affonso não conhecia nenhuma quadrinha de banheiro.
Pior que essa, só a tv italiana ou da Libéria, se a Libéria tiver tv aberta.
Vamos tirar os espinhos dessas periferias – miseráveis, fisicamente e culturalmente - I
Marco Celso Huffell Viola -Porto Alegre
Emanuel tocou em seu último post num assunto espinhoso, a droga. Como havia terminado recentemente a leitura do livro Abusado[i] do jornalista Caco Barcellos resolvi falar também sobre o assunto. No livro, Caco realiza uma reportagem investigativa sobre a vida de Juliano VP, codinome de um dos “donos” do morro Santa Marta no Rio de Janeiro entre a década de 80 e os primeiros anos do novo século quando foi morto na prisão de “segurança máxima” Bangu 1, em julho de 2003. Caco reconstitui a história desde os primeiros habitantes do morro Santa Marta, imigrantes nordestinos que se estabeleceram ali com a ajuda de don Helder Câmara e passa pelos sucessivos “donos” do morro até chegar a Juliano VP que se torna “famoso” quando consegue a presença no morro do cantor Michel Jackson para a realização de seu clipe musical, garantindo também a sua segurança, o que foi considerado uma afronta direta a Secretaria da Segurança do Rio de Janeiro. O livro é uma reportagem longa sobre o que todos sabemos, que o Brasil vive hoje em duas sociedades distintas com leis e comportamentos completamente diversos. No Rio de Janeiro 2,5 milhões de pessoas residem nas 400 favelas da cidade. Esses enclaves periféricos nas grandes cidades são resultado de todos os múltiplos desacertos sociais -políticos e econômicos - dos diversos governichos que conduziram esse país nos últimos 50 anos e terminou por fortalecer a criação de sociedades paralelas, estados autocráticos tão fortes que podem enfrentar o chamado Estado de direito ou a sociedade, sem receio, com recursos e armas superiores. A noção do Estado de direito, uma das conquista da democracia, bem como noções básicas de justiça não existe nessas realidades. A lei e a justiça é executada de acordo com vontade dos donos do morro e seus prepostos, e a ela estão sujeitos e envolvidos todos os que ali residem, homens e mulheres.Numa das batalhas travadas para devolver a liderança do morro para Juliano VP a organização da mesma ficou a cargo de mulheres ligadas a ele que se associaram a um grupo de outra favela que as apoiou com homens e armas. As estatísticas e notícias a respeito disso são tão comuns que terminam tornando indiferente a sociedade que vive em torno dessa realidade, realidade essa que também é glamourizada pela mídia ávida de lucro atrás de “sucessos” musicais, e de novas “tendências” nessas periferias miseráveis fisicamente e culturalmente. E a mídia, também, apresenta como novidade inserção dos menores de idade no circuito da droga, que só tem a porta de entrada, não a de saída. Mas vamos falar um pouco mais de violência. Um trecho do livro: “Uma implicância sem fundamento ou a necessidade de provar o seu poder de perversidade também eram motivos pra Raimundinho multiplicar os tribunais. Ele chegou a executar uma mulher Irana, de 50 anos, apenas para competir com os carrascos do Cerro Corá, gerenciado pelo amigo Bruxo, que havia matado uma adolescente chamada Choquita. Raimundinho soube que o corpo fora esquartejado em trinta pedaços, postos dentro de uma mala e desovado no meio caminho no meio da floresta, ligação ente o Cerro Corá com o Santa Marta.Dias depois Raimundinho fez a mesma coisa com Irana, que alegou ser informante dos inimigos.Mas para impressionar os amigos do morro vizinho, em vez de trinta, esquartejou em cinqüenta pedaços e mandou jogarem a mala na mesma trilha da floresta”.(pág 220 ) Os exemplos de crueldade se multiplicam, não apenas no livro. Essa crueldade é diária e constante e, é apenas caricatura de uma sociedade cujos únicos valores perenes são o poder do dinheiro e das armas que o garantem. A droga é elemento secundário em todo esse processo, pode ser qualquer uma, maconha ou cocaína, como era o álcool na década de 30 nos Estados Unidos. Segundo o livro de Caco, em setembro 2002 a renda mensal de um desses donos do morro com a droga era de 2 milhões de dólares.É importante notar, também, que os “donos” desses morros estão a serviço de patrões que estão fora dessa periferia.No caso de Juliano VP, ele fazia parte da estrutura do Comando Vermelho. O Comando Vermelho foi criado em 1979 no presídio Cândido Mendes, na Ilha Grande (RJ) a partir da relação entre presos comuns e militantes da Falange Vermelha que combatiam o regime militar.O Comando surgiu com o lema "Paz, Justiça e Liberdade" e criou o mito das organizações do tráfico do Rio. De acordo com o ex-secretário de Segurança do Rio, Luiz Eduardo Soares[ii] “esses nomes funcionam mais como linhas de demarcação que aproximam e opõem os atores coletivos, do mundo criminal do que como representação de organizações sólidas bem estabelecidas. Quanto valem, de fato, depende do contexto, da circunstância específica, do tema em foco". Ou seja, não houve nenhuma politização ou conscientização de realidade nenhuma, apenas o fortalecimento desses grupos que já existiam.Se tivesse surgido a menor organização em torno de uma plataforma política dentro desses grupos, eles já teriam sido exterminados e provavelmente as favelas teriam se tornado terra arrasada. O estado policial (não o de direito) costuma se autoproteger muito bem.E não se sente ameaçado com esses tiroteios. Esse estado só sente ameaçado se houver política no meio, como não há, pra que intervir? É preciso desmistificar e descriminalizar a venda e o uso das drogas. A nova lei dos tóxicos sancionada em 2006 criando o Sistema Nacional de Políticas sobre Drogas, tem como objetivo “prescrever medidas para prevenção do uso indevido, atenção e reinserção social de usuários e dependentes de drogas; estabelecer normas para a repressão à produção não autorizada e ao tráfico ilícito de drogas.” A principal característica é a descriminalização da posse de droga para consumo pessoal. Outra mudança é o aumento da pena para o tráfico de drogas de 3 a 15 anos para 5 a 15 anos, além de 500 a 1.500 dias-multa. O uso não é proibido, a venda sim, não é uma maravilha de legislação?O texto diz que são estabelecidas normas “para a repressão à produção não autorizada e ao tráfico ilícito de drogas”, mas existe produção e tráfico autorizado e lícito?